Crueldades

Domingos Pedrosa

2018-07-05

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Nos tempos que correm, nenhum político, da esquerda à direita, consegue impôr-se aos homens maus. E é pena. É, porque não é assim tão difícil travá-los. Um filósofo e político inglês do século XVII, disse esta verdade: “Para que o mal triunfe, só é preciso que os bons homens não façam nada”. E parece que é o que está a acontecer pelo mundo fora, ou, então, são todos maus.
Trump foi a Singapura dar umas palmadinhas nas costas (largas) do Kim, convidou-o e foi convidado por ele para visitarem os respectivos países e, além das vagas promessas que os dois fizeram - e que ninguém acredita – mais nada. São dois políticos cheios de poder, mas vazios de virtude, necessidade primeira de um estadista. O Kim, ninguém o pode “espreitar”, mas sabe-se o que ele fez e faz, e do que é capaz. E Trump? Fez e faz coisas do arco-da-velha. Começou por ser ingrato a quem o “guindou”, a quem o “sentou na cadeira política mais alta do mundo”. E agora o que está a fazer a quem tenta entrar na América, na pátria da liberdade absoluta? O inacreditável. Está a separar dos  pais que fogem da miséria, que procuram melhores condições de vida, os filhos de tenra idade que os  acompanham, e a metê-los  em jaulas! “Temos que travar os imigrandes que estão a infestar o país “ - palavras de Trump. Mas ele que não se esqueça disto: Se hoje a América é rica, se tem uma desenvolvida tecnologia e avançado cientismo, tudo  deve aos emigrantes que acolheu. Emigrantes, e não só. Trump deve saber que em 1945, no fim da guerra, que os americanos andaram na Alemanha à “caça” de cientistas alemães, antes de serem “apanhados” pelos russos. Levaram muitos para a América e, entre eles, Von Braun, “pai” das destruidoras bombas voadoras alemãs, “V1” e “V2”, e a “Apolo 4” americana, que em 1969 levou Armstong à lua.
Mas não são, só estes dois “imperadores”, Kim e Trump, os maus da fita. Na Rússia, o “czar” Putin, mostrou-se sorridente na abertura do Campeonato do Mundo de futebol, mas a ninguém fez esquecer a Ucrânia e a Crimeia, e muito menos, os assassínios dos seus opositores, nem os que apodrecem nas prisões russas. Na Europa civilizada, a desumanidade foi mostrada  há dias na Itália, na pátria do Renascimento, e foi uma vergonha. Não recebeu um barco carregado de seres humanos (cento e tal eram crianças) que fogem da fome e da guerra. E o Ministro italiano que não permitiu o desembarque, não ficou por aqui. Vai expulsar os ciganos não italianos. “Infelizmente - diz ele - vamos ter que ficar com os ciganos italianos em casa”. E na Venezuela, Maduro continua a dar fome ao seu povo, a matá-lo à fome. Lá, o salário mínimo subiu este ano, para 56 euros mensais.
Os casos hoje vividos no mundo, serão folhas da história que daqui a muitos anos impressionarão, talvez, quem as ler, como me impressionaram as barbaridades da antiguidade, as que a nossa história relata, as que “assisti” quando tinha 15 anos, as recentes. Vou referi-las para as avaliarem, e espero não aborrecer quem as conhece, já que as conto por saber que há sempre alguém que não.
No tempo dos senhores egípcios, Evérgeta VIII, fez isto: matou o filho de 14 anos, cortou-lhe a cabeça, as mãos e os pés, e mandou-o à mulher, mãe da criança, esta, por sua vez, tentou envenenar outro filho, que acabou por a envenenar a ela. Estas inumanidades aconteceram nos tempos dos profetas e dos bons e justos reis. Passaram anos, milhares, e mais crueldades se viram no tempo dos Papas, da Santa Inquisição, das fogueiras do Santo-Ofício, do tempo de um Ministro severo, implacávell: Marquês de Pombal. Ele, que aboliu os autos-de-fé, que desterrou o fanatismo, mandou supliciar os Távoras de uma maneira atroz, nunca vista em Portugal.
200 anos depois daquela brutalidade, “assistimos”  à barbárie alemã, o Holocausto na Segunda Guerra Mundial. O sacrifício de milhões de judeus, fossem velhos ou crianças. Desde que há memória escrita, não se encontra nada mais horroroso, do que fez a sanha nazi. Mas não é por isso que falo do Holocausto, falo dele, porque as declarações recentes de um responsável líder religioso  e político muçulmano, me obrigam. Então não é, que o homem que é apoiante dos “crimes de honra”, como o de um muçulmano que mata a filha que ousa namorar com um cristão, (e se for judeu, se calhar, mata-a duas vezes, tal é o ódio por aquelas paragens) cheio de ódio e de fé no Deus que ele julga que é um “pau mandado dele”, um iluminado, disse: O Holocausto nunca existiu, mas, se existiu, não foi perfeito. Se tivesse sido, não haveria hoje um judeu à face da terra. São estas mentalidades que nos garantem, que enquanto o mundo for mundo, teremos de viver sempre de braço - dado, com as crueldades.