Crónica de Armindo Faria - 30 de maio de 2018

Armindo Faria

2018-05-30

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Do reconhecimento dos próprios limites,

À serena aceitação de que existe quem possa fazer mais e melhor.

 

Para me ajudar nesta empreitada, que pretendo tranquila, de esclarecer a decisão que tomei de me afastar do leme da Rádio Vizela - Cooperativa de Radiodifusão, CRL, vou socorrer-me de um Poema de Miguel Torga, denominado “O Livro de Horas”, in “O Outro Livro de Job”:
Aqui, diante de mim,  
Eu, pecador, me confesso 
De ser assim como sou. 
Me confesso o bom e o mau 
Que vão ao leme da nau 
Nesta deriva em que vou.
É sabido que, por dia, nos vemos obrigados a tomar inúmeras decisões sobre a nossa vida e, bem assim, que as mesmas poderão afectar a de muitas pessoas.
Mas, também, ninguém ignora que, por regra, em resultado das opções que tomamos, as actividades que abraçamos têm um começo, um trajecto e um termo. 
Sendo que o fim, em si mesmo, nem sempre representará um ponto final em uma qualquer actividade, mas, por vezes, apenas, uma interrupção de uma caminhada que, mais à frente, caso se justifique e o desejemos, sempre poderemos intentar retomar.
E foi assim, precedida de pouco mais de um mês de adaptação, que no dia 03 de Janeiro de 2014 - conjuntamente com os Amigos e Colegas, entre outros, José António Dias, Liliana Faria, Carina Vieira, Zélia Fernandes e, como Coordenadora, Fátima Anjos, que me acompanharam na primeira andança de três anos - tomei posse como Presidente da Direcção da Rádio Vizela - Cooperativa de Radiodifusão, CRL.
Aventura a que, em 30 de Dezembro de 2016, continuando com a companhia dos meus Amigos, José António Dias e Fátima Anjos, esta na coordenação e, agora, também, com a de outros Amigos e Colegas, Fátima Guimarães, Rodrigo Martins (este em representação da Cooperadora Real Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Vizela) e João Artur Videira Mendes, voltei a dizer sim à chamada e, consequentemente, encabecei o Conselho de Administração da Cooperativa.
Cedo percebi, acho que o entendemos todos, que as tarefas não se apresentavam fáceis.
Não que fosse difícil gerir a instituição, ainda que tal obrigasse a muito trabalho e umas boas doses de dedicação, amor e paciência. 
Na verdade, o mais custoso foi, eventualmente continuará a ser, possuir a arte de conciliar dezenas de individualidades, livres, autónomas e, por vezes, arreigadas aos seus próprios interesses, ou seja, há que dizê-lo, muito ciosas na defesa dos  seus pequenos feudos e poderes, quiçá legítimos, que ao longo dos tempos foram tomando como seus...
Dificuldade que, todavia, só encontrava paralelo, nas costumadas e cíclicas ciumeiras que encontram guarida: 
Ou, em algumas intelectualidades pertencentes àquilo que vulgarmente se apelida de alguma “classe política”, entendida esta no pior dos seus sentidos, em contraponto ao que deveria, obrigatoriamente deverá, ser uma actividade que, por definição, sempre na minha perspectiva, terá de ser desempenhada com altruísmo, com nobreza de carácter, em suma, com sentido de serviço público; 
Ou, ainda, ancorada em pobres e residuais mentalidades que, alegadamente, pretendendo defender interesses sérios, na verdade só conseguiam demonstrar a bajulação cega a pessoas e instituições e, bem assim, a notória falta de conhecimento sobre o que é e o que representa a Rádio Vizela - Cooperativa de Radiodifusão, CRL. 
Instituição esta que, por devoção e dedicação, sendo de natureza estritamente privada, tem vindo a prestar um elevado serviço, eminentemente público, que outras, de cariz colectivo, inclusive por obrigação, negligenciam, não sabem ou não querem cumprir.
Mas, o certo é que, quer um, quer outro tipo de dificuldades - a que, no entanto, nos fomos habituando, mas nunca aceitando - pelo esforço que nos exigiam no sentido de as enfrentarmos e, ainda, de contornarmos os obstáculos que, interna e externamente, explicita ou sublimadamente, nos foram sendo colocados, inevitavelmente vão deixando marcas, causando desgaste e, especialmente, nos mostram quão frágeis são os nossos sonhos quando sustentados nas nossas ingenuidades.
Assim como, bem depressa nos demonstram a sua capacidade de causarem danos de diversa ordem: física, psicológica, profissional e familiar, que diária e reiteradamente nos são exigidos e/ou impostos.
E todas estas palavras para confessar que administrar a Cooperativa, pelo menos do modo como o entendia e ainda entendo, exigiu de mim, para além dos apontados sacrifícios, um amor incondicional que, no sábio dizer da minha saudosa Mãe, tinha  tornado a “Rádio Vizela em minha amante”.
No entanto, e ainda assim, decorreram cerca de quatro anos e meio desde que, para assumir o primeiro mandato, integralmente cumprido, tomei posse como presidente do órgão executivo da instituição Rádio Vizela.
Cargo que, não escondo, na medida da minha modesta capacidade e disponibilidade de tempo e vocação, independentemente das apontadas dificuldades, muito me orgulho de ter desempenhado.
Não sei, nunca o saberei, se o fiz bem ou mal. Outros, certamente, poderão ajuizar.
Mas estou seguro que sempre tentei dar de mim o que pude e soube e nunca me arrependo do que fiz, quando, conscientemente, o tinha e tenho como a coisa certa.
Contudo, confesso também, é muito difícil passar o tempo a tentar tomar sempre as melhores decisões. 
Tenho-o frequentemente dito e, de modo convicto, continuo a afirmar que ninguém é imprescindível e, sobretudo, que sempre haverá quem mais e melhor poderá fazer.
Estas são, pelo menos para mim, realidades incontestáveis e universais.
Com efeito, independentemente das diversas circunstâncias e razões que me possam ser apontadas para tal, o certo é que, fruto também dos desgastes que acima assinalei, não consegui levar a bom porto alguns projectos que assumi perante os Cooperadores, ou seja, concretizar ideias e planos que candidamente tinha idealizado, abraçado e julgado poder concretizar.
Mas a dura realidade da vida de cada um de nós e das circunstâncias do dia a dia da gestão da Rádio Vizela é bem diversa do que podem ser os nossos sonhos e anseios!
Daí que, assumindo desde já, exclusiva e unilateralmente, quaisquer responsabilidades pelos eventuais fracassos que tenham resultado da minha frágil “liderança”, resolutamente e sem qualquer dúvida, entendi ter chegado o tempo da mudança.
Renovação que, sempre tendo em vista os interesses da Cooperativa, de forma pensada, gradual e estruturada em continua delegação de poderes, desde há já alguns meses, fui preparando junto dos meus Colegas e dos Colaboradores mais próximos e actuantes.
É, pois, suportado na mesma força interior, humildade e coragem que um dia me levaram a aceitar o desafio de assumir a presidência do órgão executivo da instituição e que sustentou a esperança de conseguir fazer algo de útil, que agora, sentindo-a como a atitude correcta, me liberto do cargo que, durante cerca de quatro anos e meio tive a imensa honra de desempenhar ao serviço do bem comum. 
Mas espero que fique bem claro e de compreensão generalizada que, mesmo até para se sair (que não claudicar) de um qualquer projecto, para além de coragem, é necessário saber escolher o momento adequado e, mais do que tudo, saber fazê-lo em paz, com serenidade e de consciência tranquila.
E, foi assim, concretizando esta consciente resolução de vontade, que no pretérito dia 20 de Abril último, formalmente, transmiti aos meus Amigos e Colegas do Conselho de Administração e, obviamente, à Coordenadora (Fátima Anjos, pessoa que considero ser a pedra angular da instituição), a minha decisão de renúncia ao mandato (ao que dele resta) e que, em 09 do corrente, oficialmente, a comuniquei ao Ex.mo Senhor Presidente da Mesa da Assembleia Geral e, posteriormente, dela dei conhecimento ao Senhor Presidente do Conselho Fiscal.
Renuncia esta que, sem reservas, tendo sido bem aceite por todos, designada e especialmente pela Mesa da Assembleia Geral - a quem estatutariamente cabe o poder para tal e, ainda, o dever de desencadear os mecanismos aplicáveis com vista à colmatação da mesma - determina que, no dia 31 de Maio corrente cesse o exercício das minhas funções como Presidente do Conselho de Administração da Rádio Vizela - Cooperativa de Radiodifusão, CRL, nas quais, também, nos termos do legal e estatutariamente previsto, serei substituído pelo meu Amigo José António de Abreu Dias a quem, por ser o homem certo para o lugar (o Senhor Rádio), reitero os votos, já formulados pessoalmente, de inequívoco grande sucesso.
Finalmente e resistindo, com muita emoção, à nostalgia que já me vai invadindo a alma, não  posso terminar sem deixar aqui uma forte nota de penhorado agradecimento a todos os que, de um ou outro modo, me acompanharam e, sobretudo, ajudaram neste período da minha vida, nomeada e designadamente Cooperadores, Colaboradores, Parceiros, Clientes, Fornecedores e Amigos em geral que, sem excepção, permitiram o engrandecimento e crescimento daquilo que orgulhosamente gosto de designar como os diversos e ecléticos Públicos das valências da Cooperativa e que, sem dúvida, derrubando quaisquer fronteiras, constituem a enorme Família que é a Rádio Vizela.
Termino esta exposição/confissão como a iniciei, agora com a transcrição da última estrofe do citado Poema de Miguel Torga:
Me confesso de ser eu.  
Eu, tal e qual como vim 
Para dizer que sou eu 
Aqui, diante de mim!