CONCILIOS DA IGREJA DE BRAGA SANTIAGO E S. PEDRO DE RATES - O CREDO

Pedro Marques

2019-08-14

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Costumamos fazer  isto no fim, mas desta vez começamos por aqui – o nosso agradecimento às pessoas que nos lêem e que testemunham o seu gosto pelo que escrevemos e nos deixam o incentivo para que continuemos. E alguns até afirmam: “quando recebo o jornal, vou logo procurar o seu artigo”. O meu profundo reconhecimento de gratidão.
Por norma, gostamos de nos debruçar sobre temas ou realidades de Vizela e sua região. Como gostamos de escrever também sobre os labirintos da alma humana – dos sonhos aos êxitos; das derrotas e desilusões, mas também sobre a força de alma que existe dentro de nós e nos leva a dar um pontapé nos impossíveis para sermos persistentes na nossa busca de melhores dias. E neste âmbito, há muita recolha feita por nós e transportada para o “Conto”. Desta recolha, de vez em quando, iremos partilhar também alguns desses “contos” com os nossos amigos.
Desta vez, e fora de qualquer dos âmbitos referidos, mas na continuação de temas também interessantes como são alguns dos muitos que trazem até nós episódios de história, mas que a História não conta, vamos dar continuidade ao tema que na anterior nossa intervenção aqui no RVJornal trouxemos até si – curiosidades dos “Concílios de Braga”. E veja-se bem de desde quando: desde “pelos anos de Christo de 410”.
“Da Historia  Ecclesiastica  dos arcebispos de Braga, e dos santos e varoens ilustres, que florescerão neste Arcebispado”. Num livro do “anno de 1634”. História “offerecida  A Serenissima Virgem Santa Maria de Braga”. “Em Braga com todas as licenças necessarias, por Manoel Cardozo mercador de livros”. Depois da “APPROVAC,AM”, PODE LER-SE: “Vistas as informações podeSe imprimir este livro intitulado “Historia Ecclesiastica dos Arcebispos da S. Igreja de Braga & depois de impresso tornara a este Cõselho cõferido cõ seu original para se lhe dar licêça pera correr. Lisboa 1 de Janeiro de 1634. Gaspar Pereira. D. Joaõ da Silva. Francisco Barreto. Manuel da Cunha. Frei Joaõ de Vasconcellos”. (…) Taxese este livro em quinhentos reis em papel. Em Lisboa a 22 de Fevereiro de 1635(…)”.
Posto isto, vamos ver como era o “credo” da Igreja Católica “pelos anos de Christo de 410”…
Entretanto, uma curiosidade interessante – a evangelização da Hispânia pelo apóstolo Santiago. Segundo este livro, Santiago chegou à Península Hispânica no “ano 37 de Jesus Cristo encarnado”. Entrou no Douro (Portus calle) dali seguiu para Braga, que era uma cidade muito concorrida  - a Bracara Augusta, do imperador romano César Augusto. Nela havia muitos judeus e muitos adoradores da deusa egípcia Isis, que na cidade tinha um templo a si dedicado. Era Braga, nesse tempo, uma cidade “cosmopolita”, ou “metrópole” da Hispânia, porque era um centro onde só nele se podiam obter “documentos” e registos e outros actos administrativos e de justiça, comércio, etc.. Digamos que uma grande cidade onde havia os serviços equiparados às repartições públicas de hoje e lojas do cidadão. Naquele tempo, a burocracia  também já existia!
E Santiago foi para Braga que veio e começou a sua evangelização. E de Braga para outras partes da “Hespanha” desse tempo. Começando esta evangelização em Braga por um acto “estrondoso”, com a “força do trovão” na sua voz, de modo a abalar o rame-rame da indiferença das pessoas e as alertar para a sua presença. E onde começou?...Pelo “estrondoso” milagre da ressurreição de Malaquias (ou Samauel segundo outros), sepultado há mais de seiscentos anos  ali em Braga ou imediações e que, pelos vistos, tinha vindo desterrado da Palestina, por ondem de um Nubucodonosor .
Com a multidão à volta dele, Santiago, junto à sepultura do defunto, chamou pelo tal Malaquias ou Samuel e este ressuscitou. E logo ali as conversões ao cristianismo por parte dos presentes foram em massa.
Depois de instruído este ressuscitado Malaquias (segundo outros, Samuel), que passou a chamar-se de Pedro (de Rates depois), Santiago instruiu-o de conformidade e nomeou-o o primeiro bispo não só de Braga como de toda a Espanha, titulando-o de “Primaz das Hespanhas”. E é por isso que, ainda hoje, o título honorífico dos arcebispos de Braga é de “Senhor de Braga (porque passou, depois, a ter as chaves da entrada na cidade) e “Primaz das Espanhas”, pois foi Braga a primeira diocese da Península Ibérica fundada por Santiago.
Iremos voltar a S. Pedro, agora “de Rates”. Tem a sua história fantástica e cheia de milagres, que nesses tempos e muito depois também, aconteciam aos pontapés. Milagres de estrondo e de espanto. Além de outras ressurreições, até um condenado no fogo do inferno teve a sorte de dele ser resgatado e voltou ao mundo e fartou-se fazer boas obras e ir depois para o céu. Uma maravilha. Afinal nem todas as almas que caem no fogo do inferno lá ficam para sempre.
Eis o “credo”, desse ano de  “de Christo de 410”, no concílio de Braga presidido por Pancraciano ou Pancrácio:  “Creo em hum Deos-verdadeiro, eterno naõ gerado, que não procede doutrê(til), o qual criou o Ceo, & a terra, & as cousas que ahi se encerrão visíveis  invisíveis(…) Creo em hû(til)  Verbo gerado do mesmo Padre antes dos tempos, Deos de Deos verdadeiro, da própria sustancia do Padre, sem o qual se naõ fez cousa algûa (il), & pelo qual foram creadas todas as cousas (…) Creo no Espirito Santo que procede do Padre, & do Verbo, hû(til) com eles em Divindade, que falou pela boca dos Profetas, veo sobre os Apostolos, & encheu de  Sua graça a Maria May de IESV Christo (…) Creo que nesta Trindade naõ há mayor, ou menor, primeiro, ou derradeiro, mas em três distintas Pessoas há hûa (til) igualdade, hûa Deidade, hûa Divindade. Condeno, excomungo, reprovo, anathemizo todos os que sentirem, tiverem e pregarem o contrario (…) Creo que os Deoses dos Gentios  saõ Demonios, tem boca & naõ falam, olhos & naõ vem, ouvidos e naõ ouvem, nem há respiração em  sua boca. Creo que nosso Deos Trino em Pessoas e hum em essencia  fez todas as cousas do nada, & creou de terra o nosso  pai Adão, & a Eva de seu lado, destruyo o mundo por agoas, deu Lei a Moyses, e nestes últimos tempos nos visitou por Seu Filho, que segundo a carne naceo da geração de David(…).Condeno, excomungo, reprovo, anathemizo todos os que sentirem, tiverem e pregarem o contrario (…)
E prossegue o Concílio, a seguir, e já fora do “credo” a propósito de se protegerem as relíquias dos santos de modo a não serem profanadas pelos invasores:
“Agora parecendonos bem a todos ordenese o que convem fazer das reliquias, & memorias dos Santos, principalmente das de nosso Padre S. Pedro de Rates, Apostolo desta Provincia, que Santiago parente de nosso Salvador deixou nella pera salvaçaõ das almas” (…)
E nasce aqui uma questão embaraçosa e perigosa: se, afinal e como hoje se crê e se afirma, Adão e Eva não passam de duas figuras míticas do imaginário do Génesis e não pessoas reais de carne e osso, onde era e como era o dito “paraíso terreal com a tal “árvore do fruto proibido” de onde  Adão e Eva foram expulsos, onde e qual foi e como foi a “queda” e surgiu, então, o “pecado original”?...
É uma pergunta. Gostaria de saber a resposta…

Com o abraço amigo de sempre.