Cavalgada sem freio

Domingos Pedrosa

2017-05-18

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Para muitos, não há dúvidas nenhumas que andam mesmo á solta (e ninguém os pára) os Quatro Cavaleiros do Apocalipse – a Peste, a Guerra, a Fome e a Morte – quatro calamidades ancestrais numa medonha e milenar desfilada pelo mundo, e que muitos religiosos enquadram na multiplicidade das desgraças que a humanidade tem sofrido.
Apoiado na metáfora de S. João, Blasco Ibáñez escreveu “Los cuatro jinetes del Apocalipsis”, e neste seu trabalho, é arrepiante como ele “pinta” o rasto caótico da cavalgada sem freio de muitos flagelos, e dos quais temos sobrevivido. O livro de Blasco tem cem anos (foi escrito no decurso da Primeira Grande Guerra quando os alemães estavam a escassos quilómetros de Paris), a visão de S. João dois mil, e o espectro dos quatro cavaleiros permanece, a exigir reacção. A primeira, é a necessidade dos políticos de todos os países, serem homens de bom senso e bom coração, (coisa quase impossível) porque, oque se vê é o invés a soltar novos cavaleiros: a ganância, a corrupção, a violência e o desamor.
Mas vamos falar, só dos que S. João “viu” em Patmos. O primeiro foi a Peste, levava um arco e uma coroa que lhe foi dada, para prosseguir e manter novas vitórias. Foi por isso que durante séculos, as sucessivas vagas de epidemias que assolaram o mundo, foram encaradas como castigo divino. A lepra, flagelo milenar, a peste negra que grassou na Europa no século XIV, ou a cólera no século XIX, tem o seu equivalente actual na sida. 
Quer no que respeita à devastação (já são mais de dez milhões de pessoas infectadas) quer ao impacte social da marginalização a que as vítimas são votadas. Outra das “Pestes” actuais é a droga, cujo tráfico envolve milhões de euros, aumenta a corrupção e contribui para incremento de conflitos locais, além das consequências dramáticas individuais e sociais. A Guerra foi o segundo cavaleiro que S. João “viu”, e a quem tinha sido dado o poder de a fazer. Longe das invasões pontuais da Europa pelos povos do Norte e das matanças ao longo de toda a História, a guerra moderna envolve toda a sociedade, é um palco de toda a humanidade, pelo menos desde a Guerra dos Trinta Anos do século XVII, e as Napoleónicas no século XIX. No século XX, a Primeira Grande Guerra já foi um “monstro de guerra”, e a Segunda tornou-se num “monstro de guerra total” ao ceifar mais de 55 milhões de vidas, e deixar a Europa em escombros. 
Este cavaleiro tudo agrava e todos assusta, ao fazer “galopar” o seu cavalo todos os dias, em qualquer parte do mundo. O terceiro cavaleiro, a Fome, S. João “viu-o” montado num cavalo negro, levando na mão uma balança. A balança a pender para um só lado, exprimia a desigualdade no acesso aos recursos, a espiral da pobreza que inclui todas as desigualdades e descriminações. 
Fenómeno mundial de todas as épocas, a fome é uma constante com múltiplos efeitos, em que alguns milhões morrem por subalimentação, e outros milhões subnutridos estão perto da prostração. E há revoltados que não acreditam que a fatalidade que os atingiu seja vontade de Deus, como lhes dizem, ou dão como única ajuda, os condoídos de barriga cheia, para os conformar. (Porque será que as privações e provações dos desgraçados são sempre vontade de Deus, e as abastanças dos afortunados não?). 
Mais, os revoltados sabem que a produção cerealífica no mundo, permite alimentar os cinco biliões de habitantes do planeta, mas que a distribuição dos recursos permanece desigual. E depois surge a subnutrição, a fome e os problemas comportamentais nas crianças e nos jovens, o inexistente ou fraco rendimento escolar, subsequente delinquência e criminalidade. É este o percurso da pobreza e da fome, o terceiro cavaleiro que, montado num cavalo com o freio nos dentes, continua pelo mundo com a balança pendendo acentuadamente para um só lado. O quarto e último cavaleiro, deixava atrás dele o abismo, diz S. João. Era a Morte, sempre aterradora, decorrente do sentido da impotência do homem perante o seu próprio fim. 
É a perda do valor fundamental da vida humana em si mesma, questionado pelos temáticos do aborto e da eutanásia, mas certamente mais ainda, é a ameaça do desastre ecológico global.
A questão ecológica é, hoje, o maior problema social, o perigo iminente. 
A partir do século XVIII a agressão ao meio ambiente tornou-se crescente e é uma degradação quase total no nosso século, porque nada se fez nem se faz, para a travar. Se o modelo de Leste colapsou, o das democracias liberais também se vêm revelando insuficientes.
Do lixo doméstico aos resíduos tóxicos, da desflorestação à desertificação e à poluição das águas, das megacidades à erosão urbana, da sistemática destruição dos ecossistemas à camada de ozono e alterações climáticas, o colapso ecológico global perfila-se como a maior ameaça num futuro que é já no presente, uma forma de morte. 
O quarto cavaleiro atrás do qual segue o abismo que S. João viu, e do meio dele, alguém dirá o que sempre se ouve quando flagelos dilaceram a humanidade: É a vontade de Deus! (É, porque a dos homens foi pouca ou nenhuma, para evitar a catástrofe – dizemos nós).