CANTARES DAS JANEIRAS E DOS REIS HÁ CINQUENTA ANOS

Pedro Marques

2019-01-24

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Com a “festa” do S. Sebastião, celebrada no domingo passado, fechou-se o tempo dos “cantares das janeiras e dos reis”. Como adiante referimos, “depois do S. Sebastião, só de lambão!”
“Os Reis”, hoje, cantam-se mais no âmbito de grupos corais, bandas, grupos folclóricos, além de ouras agremiações. E ainda bem. Pelo menos, este é um meio pelo qual se dá continuidade a uma tradição que era de porta em porta. Começava-se, primeiro, com as “Janeiras”, a seguir ao Natal até ao dia de “reis”. Que hoje até se prolonga até ao S. Sebastião.  Já não com a denominação de “janeiras”, mas de “reis”. E diz o POVO que “depois do S. Sebastião (vinte de Janeiro) só de lambão.
Na sua intenção e expressão puras, estava a solenização do Menino Jesus, aos grupos, de porta em porta, de noite, cantando-se quadras alusivas ao nascimento de Jesus e convivendo-se uns minutinhos, que por vezes até se prolongavam em horas. E nesse convívio, comia-se e bebia-se e conversava-se. Um convívio diferente sadio e de reforço de amizades e criação até de novas amizades. E na comida que então se repartia, para além dos figos, nozes, aletria, formigos, rabanadas, sopas-secas, pinhões, etc. não podia faltar o vinho. De modo especial, o “vinho fino”. E se então um dos motivos era a oportunidade de convívio, era também uma forma de a mocidade amealhar alguns tostões. Num tempo muito difícil de se fazer poupanças para as quais muito ajudavam os rudimentares mealheiros feitos de latas de sardinha de conserva, que se pregavam do lado de dentro da porta de entrada na cozinha. Mealheiro este que só depois de arrancado a martelo ou alicate bem forte se conseguia tirar as moedas, entretanto ali amealhadas. E com muita sorte, algumas “notas de vinte (escudos). O pé-de-meia (feito de meias velhas de senhora) era mais tentador para se desfazer: era só desatar ou rasgar a meia e logo se podia dispor das moedas que a tentação de as ir buscar nunca permitia economias duradouras. Naquele pregado com pregos na porta da cozinha a poupança resistia mais tempo. Por vezes, até mais de um ano. Para um fatinho, um camisa, ou botas…
No nosso tempo de rapazinho, entre várias, cantavam-se estas loas: “Aqui estão os reis à porta/ aqui estão pra se cantar/ se o snr. nos der licença/ nós os vamos começar (…)”. E depois, entrando-se na parte gulosa do objectivo do cantar das “janeiras” e dos “reis”, havia esta: “Dai-nos vinho fino/ do melhor que houver/ o Bairrada não é bom/ o moscatel é que se quer.” E seguia-se uma infinidade de quadras que nem sempre eram as mesmas: cada grupo arranjava as suas. Com relativa abundância, se podem encontrar na internet recolhas de quadras alusivas à tradição das “janeiras” e dos “reis.
Quando viemos para Vizela, logo a seguir ao dia de Natal, também logo começámos a ouvir o cantar das “janeiras”. Recordamo-nos bem desse tempo. Estávamos então a fazer serões no Banco Nacional Ultramarino na rua principal. E nessas noites, frias e geladas, estava o luar bonito de Janeiro de quem o POVO dizia: “luar de Janeiro não tem parceiro”. E enquanto trabalhávamos, andava um grupo de rapazes e raparigas a cantar as “janeiras” para angariação de receitas para as obras da igreja nova de S. Miguel, então construída ainda até meio. E ouvíamos, a solo, uma voz lindíssima. De uma rapariga de cabelos claros. Uma voz de rouxinol ou cotovia. Que maravilha de voz! E viemos espreitar quando se cantava aos portões das casas dos Farias, em frente. E até os serões nos corriam melhor.
Mais tarde, connosco já integrado no grupo coral de S. Miguel no tempo do Monsenhor, viemos a descobrir que essa voz tão maviosa no seu aveludado timbre era a da Aninhas Peixinha que também fazia parte do grupo coral e onde passámos a ser “colegas”. Hoje, passados já cinquenta e dois anos, ainda estamos a ver e a ouvir, na memória e de modo indelével, esse cantar de janeiras em noite muito gelada, mas de lindíssima luz do luar.
Uns bons pares de anos mais tarde, viemos também a integrar-nos num grupo de cantar de “janeiras” ou “reis” – quando passámos a fazer parte dos órgãos sociais da Sociedade Filarmónica Vizelense. Ao tempo, cantavam-se os “reis (janeiras)” para angariação de receitas para a nova sede da banda. Que se construiu e lá está, imponente ainda, na antiga “feira dos porcos”. E isto durante alguns anos. E arrecadavam-se algumas boas economias. De alguns empresários, com significativa generosidade até. Recordamos, por exemplo, a D. Maria do Céu das confecções “Guilherme Caldas Peixoto”, que nos franqueava a sua casa e além do donativo, nos oferecia, sempre, um suculento “lanche”. 
Para esta iniciativa do “cantar dos reis”, temos de prestar a nossa homenagem a dois homens, os grandes obreiros da concretização da então nova sede da Sociedade Filarmónica:  o Marques Guerra (o motor da iniciativa), da Praça ali ao lado, com alguns braços direitos -  um deles, o saudoso Alcides Campelos.
E este “cantar de reis” pelo grupo, tinha também os seus hilariantes e lindos episódios. Com tanto “lanche” por vezes porta-sim, porta-sim, o ambiente “aquecia” por obra e graça do tal “vinho fino do melhor que houver” e já se cantava de entusiasmo do “aquecimento” do tal vinho “do melhor que houver”. De uma das vezes que fomos cantar os “reis “a Lustosa – cremos que à casa do “Machadinho” como carinhosamente era tratado e tinha umas confecções em Vizela, um dos nossos “colegas” de cantar, de tão animado que ficou, em vez de vir para Vizela na carrinha que lá acima nos levou e nos trouxe de regresso, preferiu vir a pé. Saiu de lá a cantar, estrada abaixo. Mais de uma hora depois e já bem de madrugada, passou à nossa porta ainda a cantar. E a cantar chegou a casa. Ficou sem se saber é que tipo de cantar ele passou a ser quando entrou em casa.
E era lindo, então, quando a banda e o coro batiam à porta das casas. E acontecia festa. E com ansiedade me cada ano seguinte se esperava por este “cantar de reis”. Tivemos também o honroso privilégio de eles virem à nossa casa, onde os nossos netinhos deliravam com espectáculo tão maravilhoso e que os deixava tão felizes. Bons tempos, esses. E fica a pergunta: por que não a banda da sociedade filarmóniça retomar tradição tão cativante e cheia de ternura, de sorrisos e alegria?...
“Quem diremos nós que viva,/ No ramo da salsa crua,/Viv’à menina da casa / Qu’alumia toda a rua”
Com o abraço amigo de sempre,