Alminhas da Charca

Pedro Marques

2018-01-11

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Vamos retomar os nossos arquivos dos escritos sobre as Alminhas da Charca. E, a partir de hoje durante mais duas ou três edições  - se não houver textos que se tornem mais oportunos - as Alminhas da Charca irão ser o motivo da nossa colaboração neste Jornal. O texto a que nos vamos reportar foi escrito em 2016 e tem por base as recolhas obtidas a partir de 2010 e 2012. Ainda antes do nossa revisita o ano passado.
Como será óbvio, o painel destas Alminhas é de azulejo em tons do oiro e do castanho ao azul e sob a invocação da Senhora do Carmo, no hábito castanho das carmelitas, segurando na mão direita o escapulário, enquanto, que, agasalhado numa aba do manto, com a mão esquerda sustenta um Menino Jesus de pé, já crescido, vestindo peça inteira  de roupa de cor rosa cingido na cinta.
 Sob a nuvem que sustém a Senhora do Carmo, um anjo de asas abertas arrebata  para o céu uma das almas que penam em baixo nas labaredas de fogo do purgatório. A alma que está a ser arrebatada, está de mãos erguidas unidas em tom de agradecimento olhando para N. Senhora. É uma alma de menina, a avaliar pelas feições do rosto e cabelos compridos. E as que estão penando são também de jovens do sexo feminino.  De mãos erguidas em súplica. Neste purgatório, nem homens ou rapazes nem senhoras. Apenas adolescentes e juventude. Se estes painéis de cerâmica são feitos em série, vão tendo algumas diferenças no seu conteúdo pictórico e cromático.
Nos nichos de alminhas que vêm de finais do SEC: XIX , ou até de antes sem alterações e noutros erigidos na década de 1950, os painéis eram de estrutura de madeira ou folha de flandres  (chapa de folheta) pintados à mão. Destes, restam os painéis das Alminhas de Chambers e de Vilar; de Requeixos; de S. Simão (traseiras de S. Bento) e largo da igreja de S. Faustino. Como também o nicho de Alminhas de S. Tiago (Tagilde) a seguir às ruínas de antiga serração, no gaveto que da estrada sai para o atalho que nos leva à Casa da Lama ou dos “Coutos”, nome por que é também conhecida. Como ainda as Alminhas da Casa da Fonte, em S. Miguel. De todas temos fotografias que ajudarão à reconstituição das pinturas dos retábulos. 
E já agora e a propósito, chamamos a atenção para esta preciosidade de arte devocional popular e que, em nosso entender, estará alheia nas preocupações das respectivas autarquias – desde a municipal às das freguesias onde existem destas Alminhas. Como entendemos que tanto os pelouros do património e da cultura -  para não se referir outros mais adequados – deveriam ter este assunto na sua agenda de preocupações e de investimento ou requalificação. Estamos atravessando uma “onda” de propostas a património material e imaterial da Unesco dos mais diversos motivos. Não é que seja o caso, como este das Alminhas que existirão em todos os quadrantes do País.
E já que estamos “com a mão na massa” como diz o POVO, numa espécie de lura em grossa parede de uma casa de proprietário lavrador (digamos casa de uma quinta) perto do mosteiro de Vilarinho, no lugar de Idanha, está um painel em chapa restaurado aquando da requalificação do referido mosteiro. Lindo! E como este, poderiam e deveriam ficar todos os painéis dos nichos de Alminhas onde os mesmos ainda são os originais. Mesmo na situação de degradação acelerada em que se encontram, seria uma perda a sua ruína ou a sua substituição pelos de azulejo. Vamos a isso, senhores autarcas? São um valioso património evocativo da cultura religiosa do POVO. Um assunto que poderia vir a fazer parte do património religioso popular a incluir nos roteiros turísticos do concelho. Por exemplo, “na rota das Alminhas”. Fica a ideia. E a sugestão. Como a vontade e esperança de que assim venha a acontecer.
 Ali para os lados de Codessos (Paços de Ferreira e antes de Raimonda mais ou menos perto de uma capelinha sob a invocação de S. Gonçalo -na estrada à direita no sentido de Raimonda) havia, há uns anos atrás, um santeiro que fazia recuperação de painéis de nichos de Alminhas. Como há em Braga técnicos de restauro de arte sacra especializados em trabalhos destes de recuperação. Com um defeito: pagam-se bem pagos.

Com o abraço amigo de sempre