Algumas realidades justificativas da abstenção

Eugénio Silva

2019-10-31

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Eleições após eleições, regista-se um sucessivo crescimento da abstenção. Assiste-se, depois, a profundas e fervorosas análises dos resultados eleitorais. Ouvimos, então, diferentes estudiosos lamuriar sobre uma elevada abstenção que, mesmo a ponderar-se como atenuante a não atualização dos cadernos eleitorais, somada aos votos brancos e nulos tende, perigosamente, a aproxima-se dos 50%. O concelho de Vizela não foge a esta preocupante tendência nacional, mas onde os representantes dos partidos considerados do “arco de governação” optam por silenciar as origens deste fenómeno político, como bem patenteou o debate radiofónico promovido pela Rádio Vizela, na manhã do pretérito dia 12 de outubro. Uma vez todos sabermos onde radica o mal da abstenção, compreende-se esses constrangimentos que não lhes permitem sequer tergiversar sobre tão melindrosa matéria.

Todos sabem que há uma crescente desconfiança em relação aos partidos tradicionais e, pior ainda, à representação democrática. Não é por acaso que, em 2018, “apenas 17% dos jovens entre os 15 e os 24 anos consideraram que a democracia lusa funciona bem; e que 57% dos jovens dessa faixa etária não manifestem interesse por política, cerca do dobro do que acontecia em 2007. Isto significa que, a cada dia que passa, assistamos ao definhar do espaço dos valores ideológicos. Como bem concluiu Pacheco Pereira, a evidência “deste galopante vazio ideológico mostra-se como grave ameaça para o vigor da democracia, agora e cada vez mais condicionada pelos nefastos clientelismos das máquinas partidárias, ajudando, em boa parte, a explicar o avanço do abstencionismo, do surgir do populismo e do florescer da xenofobia retrógrada”. Desta maneira, os jovens lusos nunca poderão ser despertados nem mobilizados para os valores de cidadania democrática e, tão pouco, para os combates por uma sociedade mais justa e solidária, gerando o risco de parte da sociedade acabar “capturada” pelo conformismo, pela indiferença e pela elevada intuição da inutilidade do seu voto nos diferentes atos eleitorais.

Falar de abstenção implica reconhecer que há excesso de casos que bem revelam a corrupção nas suas diversas formas. Nas grandes famílias partidárias, por exemplo, a maioria dos seus membros entreajuda-se. Os exemplos de compadrio, nepotismo e corrupção são práticas correntes que, como bem ilustram episódios passados e recentes, se criam numa teia que vai desde a pequena autarquia até aos círculos máximos do governo, não chegam para afastar os prevaricadores.

Abordar a abstenção obriga, também, â admissão que é inadmissível nomear gente suspeita, diminuída de credibilidade, gente que faz pensar, com toda a legitimidade, que irá ter acesso a lugares de Estado para usurpar, provocando elevados estragos na imagem, na honra e na credibilidade dos partidos políticos e ao enfermar da democracia. Não reconhecer esta realidade levará, fatalmente, ao crescimento da abstenção, pois os eleitores continuarão a olhar para os partidos como principais veículos da corrupção.

Discorrer sobre abstenção ocasiona, ainda, aceitar que os partidos políticos colocam à cabeça das suas listas distritais pessoas com algum crédito e notabilidade, futuros deputados que poderiam vir a servir positivamente o povo, o distrito e o país. Mas, pouco tempo depois, saem para o governo e permitem a entrada de medíocres. Isto não significa que não haja seriedade, competência e exigência na maioria das nomeações. No entanto, é inegável que há uma cultura que não valoriza nem procura com afinco os melhores, nem afasta como seria de esperar os piores. E este tipo de cultura e mentalidade acaba, inexoravelmente, a minar a consolidação da própria democracia, o que leva à descredibilização das organizações democráticas, ao alimentar do discurso radical e ao avolumar do saudosismo pela ditadura, tendo já chegado ao Parlamento.
Procurar entender a abstenção necessita reconhecer-se a tremenda hipocrisia que sobrevém da perversa ideia que o mérito para se singrar na política passa por substituir pessoas menos competentes, apenas porque sabem e conseguem ser pacientes ou estar caladas e obedientes. Ou as vergonhosas ascensões de boys and girls construídas na base das fidelidades e intrigas de grupos com acesso ao poder, mesmo a não terem ou falsificarem habilitações académicas, desprovidos de mérito, sem capacidades políticas e profissionais e detentores de reduzida ou nenhuma integridade política e moral.

Falar de elevada abstenção obrigará, igualmente, à denúncia persistente desta arraigada cultura de nepotismo e compadrio partidário. A receita para a sua diminuição, que fará cessar toda esta balbúrdia, credibilizar a vida partidária e elevar a qualidade em todos os setores da atividade política e da própria administração pública, é simples e acessível: moralizar a política.