Ainda o (Snr) Vilela Gadanha Salvemos os Nichos de Alminhas

Pedro Marques

2018-04-19

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Uma das coisas ricas (boas) que nos podem acontecer é conversar com as pessoas. De onde menos se espera, vem-nos uma lição de vida. Se Jean Paul Sartre disse que “O inferno são os outros”, nós afirmamos que nos outros há muita riqueza que nos enriquece a nós.
Temos vindo a tornar públicos episódios da vida do snr. Vilela Gadanha, pessoa para nós extraordinária. Continuamos a referir que a pessoa em causa gostava de ser tratada assim. Tinha orgulho nisso. Episódios esses, de arrasto ao testemunho que nos deu sobre as Alminhas de Chambers. Por elas passamos todos os dias e mais até que uma vez ao dia. E quando lá passamos, dele nos lembramos. E vemos que o nicho continua sempre com flores renovadas, círios acesos e uma vez por outra, transeuntes recolhidas em breve oração. Após o que deixam a sua esmola, num pequenino cofre dentro do nicho e de onde todos os finais de dia é retirado, para evitar tentações ou mesmo intenções de roubo. Quem pelas Alminhas de Chambers passar reparará, com certeza, que da caixa de esmolas de origem, resta apenas o buraco de onde ela foi arrancada. Aliás, como na generalidade de todos os nichos de Alminhas.
Dentro, no retábulo, agora em chapa como se viu já, a pintura começa a evidenciar sinais preocupantes de estragos. Estragos por força do desgaste do tempo que a pintura vai delindo. E assim, mas a custo, é possível ver-se o Senhor Crucificado na respectiva cruz. Com mais custo ainda, um anjo “puxando” almas do purgatório. Do outro lado, esta cena  já quase nem se vê. E então, quanto à pintura do purgatório, na base da Cruz, estamos conversados.
Já aqui em tempos referimos o quanto a devoção às almas do purgatório é querida das pessoas. E também, por isso, as sepulturas e jazigos estão em continuada renovação de asseio de flores e de limpeza do espaço e quase sempre também um círio aceso neles. Círio aceso que, em nossa opinião é um testemunho de Fé em Deus, já que Deus é também identificado como sendo LUZ. Isto mesmo testemunhámos no recente sábado de aleluia, com o acender da fogueira e bênção do “lume novo” no átrio da igreja e nele se acender o círio sob a aclamação, cantada, de “Eis a Luz de Cristo e o povo a responder “graças a Deus!”. E onde também se canta “Glória a Ti, Deus da Luz (…). Como tanta vez cantamos também “Senhor, tu és a Luz, que ilumina a terra inteira (…)”. Aliás, o Natal de Jesus, por esse mesmo motivo passou a acontecer pelo solstício de inverno, por nele a luz ser referência precursora da Ressurreição que, por isso também, se celebra pelo equinócio da Primavera e consequente “ressurreição” da Natureza. Fé cristã e Natureza e seus rituais andam (quase) sempre interligados e em sintonia. Tudo isto, a propósito da luz dos círios, seja nas Alminhas, seja nas sepulturas dos defuntos, porque, aí, a luz é “sinal” ou símbolo de Deus, que é LUZ. E de que a alma é imortal.
Como também já aqui nos referimos à necessidade de renovação e requalificação dos nichos de Alminhas. Mesmo dos nichos que estão incrustados nos muros que delimitam  património privado. Já escrevemos aqui: se os nichos (maioria) estão incrustados em muros de propriedade privada, a FÉ, enquanto património imaterial do POVO, é também um bem público a ser protegido pelas nossas autarquias. Se há esmolas que a devoção das pessoas deixa onde isso é possível com alguma segurança, a intenção dessas esmolas é para a celebração de missas para alívio das almas do purgatório. Ou de familiares de quem a esmola deixa, ou de outras “das mais abandonadas” ou “esquecidas”, pelas quais ninguém reza. Porque é assim: quem foi marginal e miserável durante a vida e apareceu morto numa viela, ou mesmo na rua, ou no fundo de um poço; pessoa morta como se fosse cão ou gato, sem família conhecida e sem identidade, não passa disso mesmo: de um animal que a sanidade pública recolhe, guarda em arcas frigoríficas durante uns tempos a ver se alguém aparece a reclamar o corpo. Assim não acontecendo, o desgraçado é sepultado algures no cemitério. Sem flores. Sem círio. Sem orações. E, se calhar sem direito ao céu! Desgraçados os pobres de Cristo sem eira nem beira que morrem sem o conforto de uma oração! E então, as esmolas deixadas pelos devotos das almas do purgatório, são para missas para alívio das almas desses coitados. Dos mais abandonados ou esquecidos. Ou ignorados. Aliás, nalguns painéis de alminhas na súplica no retábulo onde está escrito: “Oh vós que ides passando,/ rezai por nós que estamos penando (…) consta lá também o pedido de esmolas que só por si já são refrigério das almas e também missas e outros actos piedosos. Em Vizela, seja em Chambers, seja em Vilar, seja em Santiago ( Tagilde) a seguir à Ponte Nova,  seja em Requeixos  além de outros locais,  ainda há painéis de retábulos pintados, que necessitam de requalificação. E uma vez mais a nossa preocupação pela sua recuperação serve de apelo às autarquias: não deixem morrer este património! É património de etnografia religiosa. De antropologia religiosa do POVO. Se assim não acontecer, é (mais) uma riqueza patrimonial que se perde. Há uns bons anos, em escritos nossos de reparos semelhantes em terra que não a de Vizela, de imediato e como resposta, a respectiva edilidade veio justificar-se do porquê de, ao tempo, ainda não haver sido feita a necessária requalificação, mas que ficaria agendada para o orçamento ordinário do ano seguinte. E assim aconteceu e a capela (de uma capela na verdade tinha sido feito o reparo), hoje está devidamente restaurada. Quem dera que esta nossa preocupação de agora, tivesse também um “feed-back” de sensibilidade cultural e de esperança!
E, prezados amigos, ficará para a próxima oportunidade  uma outra história na história das Alminhas de Chambers, num testemunho de vida do homem admirável que foi o (snr.) Vilela Gadanha.

Com o abraço amigo de sempre.