A propósito do Tratado de Tagilde II

Pedro Marques

2019-07-04

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Já vimos que, ao tempo da celebração dos seiscentos anos do “Tratado de Tagilde”, esta freguesia não dispunha de estradas que tivessem permitido, ao menos, a deposição de um ramo de flores junto ao monumento. E por isso, na reportagem do acontecimento, celebrado no recinto do Paço dos duques de Bragança, refere-se que (dentro do Paço) decorria uma breve cerimónia a qual, em teoria, justificava a presença do representante, em Guimarães e ali, da Casa Real de Inglaterra. E isto como alternativa à deslocação a Tagilde.
Na diversidade das múltiplas recriações de eventos alusivos no Terreiro do Paço, houve representações medievais reportadas ao tempo do Tratado, tendo-se ouvido, depois, os hinos do “God save da Queen” e o nosso Hino Nacional.
Sob a rubrica de “ O povo é quem mais ordena” - um ano antes do “Grândola, vila morena” e ainda ninguém adivinhava que o “25 de Abril” já vinha a caminho - fica-se a saber que representantes de Tagilde ali estavam também.. E quanto a rede rodoviária, também aqui se notou o quanto, e quando em liberdade, o mundo também “pula e avança”.
E então, sob essa rubrica, o jornalista da reportagem, escreveu isto: “…E Tagilde não foi ao príncipe” Onze pessoas. Onze. Às duas horas da tarde. À porta gótica do gótico palácio ducal de Guimarães. Encolhidos à sombra dum dossel escarlate que só raramente lá está. Quase uma fracção do rebanho disperso pela borrasca (vê-se que, entretanto, choveu bem para as pessoas haverem dispersado). Mas o pastor não era aquele lanceiro em grande uniforme com a espada-cajado aperrada nas mãos ambas cruzadas ao nível das ancas (alguém de alguma teatralização medieval de cavalaria numa batalha, revivendo-se, se calhar, a de S. Mamede).
E então, o repórter da caneta, diz-nos quem é este “pastor”: “ o pastor estava ali, naquele mantéu preto de humildade. Pastor mesmo, como ele nos disse. Chama-se P. João da Silva Freitas”.
E vem a seguir, para nós insólita, a explicação que o jornalista dá em relação a este  “pastor”: “um certo conceito de religião que ainda floresce nas aldeias, assim de repente transplantado para a cidade no aturdimento das ordens bruscas de certos senhores que dão ordens no aturdimento das bandas, ranchos folclóricos e fardas militares, no aturdimento de  milhares de olhos e bocas que perguntam. Como nós: “Quantas pessoas são? Quem são? O que vêm cá fazer. As ordens civis ou eclesiásticas deram o seu apoio?”
Ou seja:  fica a insinuação de que as pessoas representantes de Tagilde, onde foi celebrado o “tratado” estariam ali “a mais” como bichos saídos do buraco sem contacto com a “civilização” da cidade. Estavam autoridades civis, militares, eclesiásticas (o arcebispo de Braga). Todavia, a tantos anos de distância, parece depreender-se que as pessoas de Tagilde apareceram sem convite e tendo-se deslocado à cidade quando eram as autoridades que haviam de se ter deslocado a Tagilde.
E então, lá começam a dizer os nomes das pessoas de Tagilde ali presentes: José Vaz de Castro, António da Silva, Manuel da Silva, José de Castro e Joaquim Lopes, todos da confraria(?) da freguesia. E ainda pela Junta de Freguesia: Miguel Cardoso Leite de Faria, presidente; António Monteiro Dias, secretário; Manuel de Lima, tesoureiro, e Joaquim Pereira da Cunha, vogal e regedor.
Aqui, interrogamo-nos nós: como era possível, um representante da Justiça e com poderes policiais na freguesia e que até estava investido de dar voz de prisão a uma pessoa que fosse surpreendida a cometer um crime em flagrante delito e levá-la a tribunal, fazer também parte de um órgão administrativo como era o da Junta de Freguesia. Figura esta de regedor que, vindo que foi o 25 de Abril, se extinguiu.
Continuando, porém, na inventariação das pessoas de Tagilde que apareceram, pelos vistos sem convite, às comemorações dos seiscentos anos do “Tratado   da Aliança”, vêm mais as seguintes pessoas: “duas senhoras e uma rapariguinha, de vestido branco e um ramo de cravos vermelhos na mão (para oferecer ao príncipe, apurámos – ele repórter)”.
Estas senhoras e menina, ao que presumimos, não mereceram que tivessem sido identificadas pelo nome como o foram os cavalheiros. E, por sua vez, nem todos os cavalheiros teriam estado ali de boa disposição, pois que e na opinião do mesmo repórter, “justificava-se que a comitiva oficial a Tagilde se tivesse deslocado, uma vez que no seu adro e igreja (é que) foi oficializado o referido “Tratado”.
“- E por que não aconteceu assim? – Perguntou o repórter a esse “pastor, do qual e de imediato recebeu a resposta: “- Maus caminhos, disse-nos secamente o P. João”.
E depois de um diálogo com o P. João no qual o repórter até ironizou que Tagilde andaria então “por maus caminhos”, este informou que haveria algum desinteresse por parte da Câmara de Guimarães em relação a Tagilde: “houve obras começadas em Maio, mas que pararam; quanto à deslocação a Guimarães, foram pedidas camionetas para o povo da freguesia aparecer em peso no Paço dos Duques de Bragança, mas só mandaram uma, que transportou apenas quarenta pessoas. E o repórter continuou: “- Então o povo de Tagilde sentiu-se ofendido e não quis vir…” A resposta (do P. João) foi mordida num silêncio mais eloquente que mil palavras. Glosando o poeta: “Em Tagilde, o povo é quem mais ordena”.
Vê-se, depois, afinal, que a rapariga dos cravos se chama Ilda Ivone Faria Simões Lopes, já apressada a subir os degraus da escada até ao primeiro andar, onde ia acontecer a cerimónia. E o repórter continua: “são onze homens, cinco deles de opa vermelha, um deles levanta a cruz de ferro que veio dos cofres fortes do paço arquiepiscopal, para o Príncipe ver. E questiona-se o repórter: “Não se lembrará de nada aquela cruz, ao ver aqueles homens humildes e quedos, com o padre de capa talar de merino preto?”
Porém, mal as pessoas de Tagilde tentam subir as escadas, logo são “convidadas” a descer: nada de flores nem de delegações de Tagilde. Apenas o P. João consegue chegar junto do Príncipe, que lhe fala em inglês, se calhar a pedir desculpa pela falta de consideração da comitiva encarregada de receber o Príncipe.
E diz mais o repórter: “Estes homens de Tagilde devem ter decorado para sempre, nas rugas que o arado do tempo cinzelou, esta palavra “cerimónia”. E hão-de contar aos netos até à idade de emigração.
Porém, “o duque de Edimburgo chama o P. João para o cumprimentar. E o rebanho mexe-se, esquece as “ordens”, sente-se gente e respira. A estas horas (o padre João) estará a interrogar-se se as palavras ditas em inglês pelo Príncipe, não teriam sido uma desculpa de ele não ter ido a Tagilde. E então, uma mulher do povo chama pela Ilda. E a Ilda rompe por entre aqueles fatos de tecido raro e caro. Leva um ramo de cravos vermelhos. Regressa com um beijo na cara.”
“O P. João vai ter muito que contar em Tagilde. E vai ter tempo para explicar tudo, enquanto o tal caminho (da Água Nova?)  não ficar arranjado. Interessa isso muito?... O caminho?...Não! O Tratado! E se daqui a mais não sei quantos séculos (se cada rosa continuar a valer um século), uma rainha ou um príncipe lá for, já haverá mais coisas de interesse?... O Tratado?... Não! O rebanho! Afinal, de que estamos a falar?... (assinado, S. T.)” 
E aqui e assim fica partilhada a efeméride das comemorações dos seiscentos anos do Tratado de Tagilde em 09.06.1973, tão traumática pela falta de consideração para com os representantes da freguesia em cuja igreja foi assinado o Tratado e para o que a comitiva da celebração se esteve marimbando e com pouca simpatia até.
Com o abraço amigo de sempre.