A Propósito do Sacerdote Giselo

Pedro Marques

2018-02-08

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O Crime, ou seja neste caso, o “pecado” (também) compensa.
Desta vez, leitor amigo, vimos até junto de si com a reflexão de um assunto que é “tabu”, incómodo e dos tais que são “fracturantes”. Na forma em que vamos pegar nele, não seremos o Pedro Marques “radical”. Mas não deixaremos de ser um “crítico”.
Os telejornais de domingo à noite e de segunda-feira passados, voltaram com o “caso” do sacerdote Giselo, pároco do Monte, no Funchal, que assumiu a paternidade de uma bebé. E tudo bem: não fez mais que o seu dever. Dever que, porém, haveria de ser mais completo com a sua renúncia efectiva ao sacerdócio porque “fraquejou” no seu dever de celibatário. O ter violado a castidade a que estava sujeito, esse, para  a mentalidade de hoje, mas não de todos(!) é já um pormenor secundário, quando, no dever do celibato está imperativo o dever de ter de ser casto. Mas, ao que se vê, isto foi outrora. E só décadas mais tarde, numa viagem com condiscípulos até Roma, é que “se nos abriram os olhos” quando neste preciso tema em debate ao longo da viagem, um sacerdote afirmou: “Atenção! Ser celibatário não significa ser casto”! Caímos das nuvens!   Na verdade, nós, quando fomos candidato ao sacerdócio, tivemos uma educação de muita rigidez e de preparação para muita renúncia. Com a educação que fomos recebendo mas que não acabámos porque entretanto, e também por causa de tamanha exigência nos viemos embora, o candidato ao sacerdócio além da sólida formação académica tinha de ser impoluto moralmente e desapegado de afectos tão naturais e necessários no ser humano e distante das “paixões” e fugir mesmo delas e muito mais do sexo. O candidato ao sacerdócio tinha de ser um anjo de carne e osso. E sempre com o pensamento no “ferrete” do “pecado”. O sacerdote tinha de ser exemplo. Tinha de ser referência pela sua elevação moral. E tamanho foi o nosso receio de não conseguirmos estar à altura de tamanha exigência e para não corrermos o risco da eventualidade de escândalo, que optámos por nos virmos embora. E ficou-nos a certeza de que, depois, da passagem por tal “peneira de farinha triga” de malha tão apertada onde só passava a flor da farinha, quem chegava ao sacerdócio era mesmo um anjo em pessoa, “morto” para devaneios e apetites de sexo.
E depois, cá fora, e por isso, nós fomos ferrenho defensor do sacerdote, na crença e certeza que tínhamos até, de que ele face à “escola” que teve como nós, estava de facto  preparado para todo o tipo de renúncia e tormento moral na fidelidade que tinha de ter no seu dever de casto implícito no seu estado de celibatário. E quando assim o defendíamos, riam-se de nós. Da nossa “inocência”. E daí até ao lado contrário na nossa convicção, foi um passo mas só depois de alguns anos. E hoje não confiamos em nenhum, tantos e tamanhos tristemente são os exemplos negativos que passaram à rotina: sacerdotes pedófilos; sacerdotes homossexuais; sacerdotes a frequentar casas de prostitutas; sacerdotes, em segredo, envolvidos com cantoras e catequistas, se calhar até mesmo casadas. Até que se descubra. E quando o namorado ou o marido de alguma destas descobre mesmo que foi traído, o sacerdote que se cuide! Ainda não vai há muito que, ali para os lados do mar a seguir à Póvoa, um ficou com o corpo em “vinha-de-alhos”. Há não muito tempo, e relativamente perto de nós, apareceu grávida uma cantora. E o sacerdote, autor da gravidez, com a verticalidade e honestidade que eram dever seu, foi ter com o seu bispo a solicitar a renúncia ao sacerdócio. Teve o nosso aplauso. Mas quando foi perguntado ao bispo se ele iria ser substituído, o bispo foi titubeante na explicação: que não poderia ser bem assim, porque hoje os sacerdotes são muito poucos e fazem falta à igreja… E por aí fora. Se o sacerdote em causa se veio mesmo embora, é certeza nossa de que foi HOMEM E COERENTE consigo mesmo. E de novo tem o nosso aplauso. Se acabou por ficar, lamentamos. Tanto o sacerdote Giselo como este, são uma nódoa na Igreja. Para já não falar num outro parece que ali para os lados de Lisboa: esse até, conhecidos, tinha três filhos e um de cada mulher. Assim é que é!
Nós até compreendemos o lado humano do sacerdote, que é um homem de afectos como nós mas que, e desde o Concílio de Trento e quanto a nós, é vítima do “pecado contra a Natureza”, ao ver-se privado o sacerdote de um anseio legítimo como é o de “não separe o homem o que Deus uniu”. E no seu todo, Deus uniu homem e mulher. Porque isto de ter “vocação” (?...) para o sacerdócio é muito bonito. Enquanto o entusiasmo do IDEAL se mantém, é um sacerdote espectacular. Quando o entusiasmo amortece ou até desaparece, o sacerdote sente-se vazio e só. E procura o que a Natureza lhe pede: Afecto. Amor. “Não convém que o homem esteja só (…)”-  Génesis. Porém, desde que abençoado no matrimónio! Pelos vistos também este sacerdote Giselo irá continuar na sua função de sacerdote, ainda que fora da paróquia. E quando lhe vier a “tentação da carne”  até mais encorajado fica para procurar a mãe da sua bebé e fecundá-la de novo. “Quem faz um cesto faz um cento”. Então, por que não, se até catequistas da paróquia do Monte “rasgaram as suas vestes” de indignação pois que ele era um sacerdote exemplar (!!!) na sua igreja?...
E o pecado? Para onde foi?.. Se calhar, o sacerdote é como os deputados da Assembleia da República que gozam do direito de “imunidade”:  Se cometem um crime, só respondem em tribunal se lhe for levantado esse direito. Porque estão a cima da Lei. Veja-se, noutro âmbito idêntico, o que se está a passar com os juízes conselheiros sob suspeita de crime. Que também estão acima da Lei. Os ditos “leigos” se faltarem ao seu dever de estado, cometem pecado gravíssimo. O sacerdote, não! Está imune ao pecado! Está incólume ao pecado. Dantes, o sacerdote que erguesse a Deus (à elevação da missa) o Pão e o Vinho consagrados, cometia sacrilégio gravíssimo, réu de morte do Corpo e Sangue de Jesus. Agora, parece que não. É natural e legítimo o sacerdote ter mulher e filhos. Mesmo fora do casamento. Pelo menos a opinião feita de quem os defende vai neste sentido. Que formação moral e de disciplina de igreja é a de catequistas assim?... Quem recorda ainda o padre Frederico, também do Funchal que até teve amigos que lhe abriram a porta da cadeia e ele fugiu para o Brasil? O “crime”, isto é, o “pecado”, compensa mesmo. 
Jesus tem de voltar à terra e pegar num azorrague. Não de fio de sisal, mas de fios de aço. E renovar uma igreja que, na expressão, de um outro condiscípulo nosso entretanto falecido, assim desabafou connosco:” Cada vez estou mais triste com a igreja que sirvo. Cada vez é menos a Igreja que Jesus fundou (…)”
Há falta de sacerdotes? Que se recuperem os que entretanto e pelos mesmos motivos regressaram ao laicado. Casados e com família constituída. E com o zelo de quererem ser sacerdotes de novo no activo mas que a Igreja rejeita. Até um movimento constituíram de “pressão” legítima de regressarem ao sacerdócio mesmo que casados (segundo a Igreja) e com filhos. Estes tiveram a dignidade da renúncia efectiva ao sacerdócio que neles imprimou carácter (ou também já não será assim?) e terem de regressar à sociedade e passarem a ter de comer o pão com o suor do seu rosto num emprego que tiveram de procurar e com renúncia a férias várias e viagens, várias vezes ao ano, regalias sem patrão e de dinheiro fácil e sempre à mão. É só a Igreja chamá-los e eles regressarão. Por que será que os em causa desta reflexão poderão continuar e estes casados segundo a exigência da Igreja não podem?...
Com o abraço amigo de sempre.