A propósito do Abade de Tagilde e informações em jeito de rodapé

Pedro Marques

2019-02-07

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Já no extinto jornal “Notícias de Vizela”, há uns bons anos, nos debruçámos sobre este sacerdote, que foi pároco de Tagilde, em cuja freguesia entrou em 1887, aos trinta e quatro anos de idade e onde permaneceu durante vinte e cinco anos, até falecer em 20.04.1912, aos cinquenta e oito (nasceu em 29.12.1853), vitimado por uma pneumonia.
Não se pense que a este sacerdote lhe veio a “vocação” logo após a instrução primária.  Instrução primária essa rara, aliás, nesse tempo. E não se pense também que este sacerdote tenha vindo de família humilde como grande parte dos sacerdotes, como, por exemplo, os da nossa geração e seguintes. O peso do analfabetismo era uma realidade, como a foi evidente pelas décadas fora. É dos tempos muito recentes a criação da escola de adultos para analfabetos. E mesmo assim, nas pessoas mais idosas, há algumas ainda que não sabem ler nem escrever. Todavia, em Vizela, No SEC. XIX já havia duas escolas oficiais do ensino primário: Na entrada da Rua António Pereira da Silva (antiga “feira dos porcos”), era a escola de S. Miguel. “É a mais antiga.  Para o sexo masculino. Criada por portaria régia de 14.03.182, sendo nomeado por provisão de (…) de Junho do mesmo ano o prof. António Pereira da Silva (…).  Que à rua deu o nome. E na Rua Joaquim Pinto, outra, mas já para ambos os sexos. Terá sido nesta de S. João que terá feito a sua instrução primária o nosso compositor Chicória.  Se esta escola tinha sido pedida em 1866 só em 1873 começou a funcionar. Para as meninas, ao tempo, só havia escolas particulares. O sexo feminino era, portanto, discriminado, pelo Estado, no ensino.  E – veja-se!  - até uma escola nocturna (mas particular também), para adultos, nesse tempo se criou! É notório o facto de que já nesse tempo, sucedendo aos “mestres-escola”, havia professores primários. Mas também os chamados “regentes escolares”. Vizela teve alguns. E talvez haja um ou outro vivo ainda. E a nossa instrução primária começou com uma regente escolar. Alta. Feia. De cabelos negros compridos pelos ombros abaixo e vestida de preto. Muitos de nós tínhamos terror dela. Ficou-nos dela uma imagem de medo, sinistra. E dava bofetada velha. Uma bruxa. De tanto nos bater, no dia da “prova”, fugimos-lhe. E a nossa mãe não nos bateu! Era essa escola no meio dos campos. Numa sala de carteiras compridas onde nos sentávamos à meia dúzia em cada uma.
Tudo isto a propósito da instrução primária do que viria a ser o abade de Tagilde.
No nosso caso pessoal, pois fomos estudante para o sacerdócio e do que nos orgulhamos pois beneficiámos também de profunda formação académica, nós éramos filhos de pai operário e mãe doméstica, ora se dedicando a nossa mãe exclusivamente à vida de casa; ora trabalhando fora  “a dias”, tipo jornaleira; ora mesmo indo lavar roupa de outras casas ao rio; ou mesmo colhendo flores do rio e as vendendo no mercado. Sempre eram mais uns tostõezinhos que vinham ajudar o muito modesto salário do nosso pai, tecelão na fábrica têxtil do Narciso Ferreira, em Caniços, ao lado da CHENOP.
Ora, pelo que sabemos da biografia deste sacerdote, abade de Tagilde, mas cujo nome foi o de João Gomes Oliveira Guimarães, além da instrução primária desse tempo, sendo ele de Mascotelos, após Nespereira; e num tempo sem transportes a não serem as carroças de cavalos, se calhar também das do célebre Cabanelas, cujo nome perdurou até há relativamente poucos anos atrás, ele foi aos catorze anos estudar para o liceu de Braga, cujo curso acabou pelos dezanove anos. E só depois optou pelo seminário. 
Ora, para uma família ter um filho a estudar em Braga, num tempo sem transportes diários, tinha de se lhe pagar a estadia. Era, portanto, de uma família de algumas posses. Imagine-se o quanto isso teria custado, a avaliar hoje por quem, sem propinas, tenha de pagar o alojamento dos universitários a frequentar o ensino superior, distantes das respectivas localidades.
 E deixem-nos que nos reportemos ao nosso caso. Então, no nosso tempo, para estudarmos no liceu não havia hipóteses. E, se fomos estudar para o seminário, tivemos de ter boas ajudas. A começar pelo enxoval e pela pensão de alojamento interno – as “propinas” de hoje - e pelo custo dos livros. E cinco anos depois, para a batina, cabeção, chapéu de três bicos, sapatos de fivela e faixa preta, era necessário haver dinheiro! Não tivesse havido essas ajudas e este rapaz teria sido mais um dos anónimos na massa do operariado ou a amassar paredes ou pintar casas ou pedreiro na construção civil. Neste âmbito, fomos um privilegiado a partir de 1953. 
Regressando ao abade de Tagilde, em 1872 matriculou-se ele no curso de teologia, concluído em 1875. A avaliar por esta cronologia, a “vocação” para o sacerdócio despertou nele só aos dezanove anos. Naturalmente já com alguma experiência de namoro. E se calhar, pelo desgosto de algum fracasso.  À semelhança, aliás, de outros mas apenas em relação à idade . Como por exemplo, o célebre monge beneditino Frei Hermano da Câmara,  que foi quase nosso vizinho em Singeverga durante alguns anos.
Cremos que do abade de Tagilde, as pessoas recordem apenas a toponímia da Avenida na nossa cidade. Dá também o nome a uma rua na cidade de Guimarães, que ele muito frequentou na colaboração e cooperação que dava a Martins Sarmento.  Aliás, o abade de Tagilde, além de vereador, chegou a ser Presidente da Câmara Municipal de Guimarães.
Ao tempo, a freguesia de Tagilde não teria mais que seiscentas almas para pastorear, pelo que – pode-se concluir – o zelo pelas almas, incluídas as deslocações aos moribundos terminais para a extrema-unção, não seria assim de leve actividade. Só as confissões mesais, ocupariam mais um pouco de tempo. E os assentos de nascimento, casamento e óbitos da freguesia, também não lhe ocupariam mais que umas escassas horas de meio em meio ano.  Por exemplo, reparemos no “censo apresentado por Américo Costa no seu “Diccionario Chorographico” : Tagilde em 1890, possuía 137 fogos e 545 habitantes. No ano de 1893, houve em Tagilde vinte e seis baptismos, sete casamentos e dezasseis óbitos.” Ora um trabalho administrativo destes, far-se-ia, de uma assentada em meio dia. Como curiosidade, nesse ano, os nascimentos excederam os óbitos em dez indivíduos.
Com o abraço amigo de sempre