A Propósito de Transumância

Pedro Marques

2018-07-19

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Realizou-se ainda há pouco, num fim-de-semana de Junho passado, mais uma recriação da deslocação de gado caprino de umas terras para outras. Neste caso, nas montanhas da serra de Montemuro, no concelho de Castro Daire. Também fomos convidados para participarmos nesse evento. Infelizmente, não nos foi possível acompanhar presencialmente. Mas acompanhámos à distância. E para o ano se verá. Nós gostamos muito disto.
Castro Daire não é um concelho que nos seja totalmente desconhecido, pois que não é. O rio Paiva faz fronteira entre Castro Daire e Arouca, com excepção da freguesia de Alvarenga que, sendo do concelho de Arouca, fica na margem direita daquele rio. Freguesia onde já estivemos mais que uma vez e às do lado de cá do rio, de vez em quando lá vamos. Mais precisamente à freguesia de Janarde – aos lugares de Silveiras e Meitriz. E o que se passa de um lado do rio, passa-se também do outro - o mesmo é dizer que a deslocação de gado caprino de uma terra para outra, deste lado também acontece ainda que também dentro do mesmo concelho. Chama-se a isto “transumância” – caminhada através do húmus. Ou seja, onde o chão possa dar pasto para o gado à medida que ele vá desaparecendo.
Vimos a recriação, à distância” da transumância de gado caprino, num evento que em Castro Daire tem vindo a acontecer de há já alguns anos. De muitas e muitas “cabeças” deste gado, que dos currais saem logo de manhãzinha e ao redil regressam ao findar do dia.
A transumância, em termos de melhor definição, acontece quando o gado se desloca de uma terra para outra de concelhos diferentes e até em longas distâncias e o gado vai rapando o que houver para rapar durante o percurso: as ovelhas, erva; as cabras pontas de silva e de mato. E por isso o povo diz que “ovelha não é para mato”.  O mesmo acontece também com outro gado que não o caprino ou lanígero. Com o gado bovino, também. E imagine-se, até com as pessoas. Foram célebres os “ratinhos das Beiras na busca de trabalhos sazonais no Alentejo e de pasto para o seu gado. Para não irmos à emigração. Em Vizela, em termos de “transumância”, destas deslocações assim para longe ainda que dentro do mesmo concelho ou na área da mesma serra como nos parece que é caso de Castro Daire na serra de Montemuro, elas deverão ter já acabado. Porém, temos, nas nossas memórias escritas, referências ao “último cabreiro de Vizela” que foi o snr. Artur com o qual chegámos a conversar sobre a criação do gado caprino das várias dezenas de “cabeças” que possuía. De cabras do vale (dos rios) e de cabras de montanha. E do sabor da carne destes animais em função dos locais de pastagem. E em Vizela, nesta “mini-transumância, este snr. Artur caminhava com o seu gado pelas montanhas de Vilarinho adiante, Roriz até Negrelos, num percurso de uns bons dez quilómetros para cada lado. Saía de manhã e regressava à noite. E não poucas vezes o vimos -  e ele a nós – e por isso nos cumprimentávamos à distância: ele sobre um penedo apoiado na sua vara e nós caminhando carreiros adiante. Não tendo, para si, esses locais nenhum segredo que ele não conhecesse.
Em Silveiras, do concelho de Arouca e na margem esquerda do Paiva, quando na direita começa o concelho de Castro Daire por cuja freguesia de Cabril já andámos, assistimos nós à saída de gado caprino para as montanhas da Gralheira sob a responsabilidade de um vezeiro ou vezeira, à vez, portanto, na vivência de espírito comunitário de aldeias como colmeias de ajuda mútua. Uma espécie também de transumância. Não com a dimensão da “última rota de transumância de Castro Daire” com centenas e centenas de gado caprino; mas bem superior à “transumância” de Vizela das cabras do snr. Artur. Costume este que terá chegado ao fim entre nós. Mas costume ainda muito arreigado no concelho de Castro Daire.  E pelos vistos, para continuar como atracção turística serrana.
E por se tratar de uma “cultura etnográfica” em vias de extinção cada vez mais próxima, em boa hora a Edilidade de Castro Daire  se decidiu pela manutenção deste costume, elevando-o ao patamar de cultura etnográfica no espaço da movimentação antropológica da pessoa humana, cada vez mais desarreigada do seu chão num alastramento preocupante da desertificação humana em sítios quase inóspitos por falta de apoio dos sucessivos governos que deixaram ao abandono o interior do País em benefício do litoral.   E nestas regiões, esse abandono até dá gritos. Todavia, o POVO sabe dar a volta “por cima” e até da penúria sabe criar riqueza. Pegando nesta sua realidade rural, Castro Daire conseguiu dar atractivo de visibilidade turística a este valor rural de criação de gado caprino. E com sucesso! Na verdade, têm   vindo a ser muitos os forasteiros que vêm assistir ao “simulacro” da transumância de gado caprino das suas aldeias pelo território adiante e de melhores pastagens  por outras terras.
E assim, a “ultima rota de transumância de Castro Daire” transformou-se em festa e em romaria. Com dormida até dos “vezeiros”, na montanha em agasalhos e abrigos improvisados, uma vez que esta transumância começa num sábado com regresso no domingo e se tem de pernoitar na montanha. À boa maneira de antigamente quando o gado saía num dia e só regressava tempos depois. E foram dois dias de alegria na vila de Castro Daire, com o “desfilar” de centenas e centenas de gado caprino. Com os cães de guarda para protecção do gado dos ataques dos lobos. Com vezeiros desfilando no seu uniforme de pastores de montanha. E até com música de viola e ferrinhos e concertina e outros instrumentos. Festa que resulta da partilha de trabalho de uns com os outros, à boa maneira das desfolhadas, vindimas e pisar das uvas... de um outrora cada vez mais próximo! O POVO, do suor e das lágrimas, consegue  extrair alegrias!
Já sabe, leitor amigo. Para o ano e se quer enriquecer a sua identidade com o chão que pisamos sem pensarmos na linguagem que ele tem para nós, esteja atento. E para o ano, a partir de Junho e se quer ter uns dias de férias diferentes, fique atento e vá até Castro Daire. E não se arrependerá. Para o ano, isso iremos fazer também.

Com o abraço amigo de sempre.