A MEDICINA POPULAR EM VIZELA NA ANTROPOLOGIA

Pedro Marques

2018-10-31

Partilhe:

A INVOCAÇÃO DE S. SILVESTRE E ANJOS E ARCANJOS


Entre várias curiosidades, uma delas é a de que a medicina popular é exercida só por mulheres. Aqui, são elas que têm o “pontificado” deste “sacerdócio”. Pelo menos, das visitas que fizemos em Vizela, não apareceu nenhum homem. Fora deste âmbito da medicina popular, há sim, os endireitas, os bruxos. Com maior ou menor dose de charlatanice. Como havia nas feiras os “vendedores da banha de cobra”.
Destes, nas feiras de Vizela enquanto esta se fez na Lameira e depois se transferiu para os terrenos da que foi a “quinta da Portela”, nas traseiras dos prédios da avenida. E de onde foi transferida para o local onde hoje é o mercado municipal. E dali, para o actual.
 Então, nas feiras, à quinta-feira, estava sempre um cavalheiro que vinha de comboio dos lados do Porto e de comboio regressava ao seu local de residência, aí pelo meio dia. Era um snr. magro, alto, impecavelmente vestido: calça branca e casaco preto. Muito bem penteado o seu lustroso cabelo. Tinha um bigote curtinho e patilhas. Sempre muito sisudo, nunca lhe descobrimos um sorriso. Depois, desapareceu. Melhor dizendo: há alguns tempos atrás, voltámos a vê-lo, quando pensávamos que tivesse até já falecido. Mas ainda não. E Deus o guarde vivo por muitos e bons anos ainda. E ainda mais recentemente à entrada do mercado actual, junto da porta lateral voltada a sul, estava um outro cavalheiro, com várias embalagens pequeninas brancas  e redondas e de pomada branca. Pomada que, segundo ele apregoava, também dava para tudo curar. Aquele tal, quando vinha, montava a sua banca forrada a tecido branco e sobre ela expunha as suas pomadas milagrosas, que davam para todo o tipo de curas de pele e enxaquecas. Por vezes, propagandeava a sua mercadoria através de um megafone. Ao tempo, nós tínhamos um eczema num dos pés e que era rebelde à eficácia das pomadas procuradas nas farmácias. E então fomos à feira e comprámos uma embalagem. Depois de aplicada, quase nos arrancou a pele da sola do pé. Mas curou!
E já gora, recordamo-nos de, no nosso tempo de estudante, de problema idêntico havermos padecido numa outra parte de um dos pés. E também resistente às pomadas das farmácias entretanto aplicadas.  E alguém, então, disse à minha mãe “Leve-o à sra. Aninhas de Paços” (Sta Cristina do Couto - Sto Tirso). Era uma senhora já velhinha e lavradeira, que nos recebeu na eira repleta de milho e feijão a secar e, enquanto ela caminhava, os socos ecoavam no alpendre como castanholas em romaria.  Vendo-nos vestido de fato (a nossa “farda” de estudante de padre), e perguntando-nos ao que íamos, ela mexeu com um graveto pequenito nas lajes da eira. Mesmo velhinha e num tempo de analfabetismo generalizado, ela sabia escrever.  Num tempo em que as pessoas assim idosas eram uma excepção ao analfabetismo normal entre elas. Foi então debaixo dos alpendres de guardar o milho seco e forragens secas. Uma eira, tal como a que foi da Miquinhas do Souto (Tagilde), embora esta mais pequena e onde também por esta fomos recebido. Desta vez, porém, não na busca de qualquer medicação, mas para ela nos falar da medicina popular que exercia.
Regressando à “Aninhas de Paços”, ela volta do alpendre com um lápis e uma tirinha de papel, onde tinha entretanto escrito a “receita” de uma pomada, ao mesmo tempo que nos diz “passe pela farmácia e peça para lhe fornecerem esta pomada”. 
No regresso, passámos então pela farmácia e trouxemos a tal pomada e foi quando então aconteceu a tal curiosidade insólita (milagre): poucos dias depois de aplicada, a inflamação e o prurido desapareceram. Para não voltarem nunca mais. Situemo-nos, agora no exercício desta medicina popular em Vizela. Se os casos de que nos vamos socorrer a sua recolha foi em 1994, é do nosso conhecimento que esta medicina dita do POVO, em alguns lugares, concorre com a medicina médica, ou ainda lhe resiste. Na verdade, ainda se fazem responsos e se “talham” maleitas e se esconjuram invejas e “maus olhados”. E quem isto faz, afirma que sente, por vezes, alguma resistência por parte, se calhar, de espíritos maus que se apoderaram da sua “vítima”. Nós hoje até gracejamos destas crenças dos “espíritos maus”. Todavia, não nos esqueçamos de dois pormenores. No Antigo Testamento da Bíblia, constam lá passagens como a de Deus enfurecido, a soltar espíritos maus para “castigarem” o povo rebelde ou quem o Seu povo perseguisse. Os espíritos maus eram, então, uma arma de arremesso. Na Bíblia (Antigo Testamento), por vezes os profetas consultavam os adivinhos e davam muito crédito aos sonhos. Nos nossos tempos de juventude, no extinto (?) rito bracarense, no fim da missa, o sacerdote, antes de regressar à sacristia para se desparamentar, de joelhos e de costas para nós, pois a missa ainda se celebrava de costas para a assembleia, rezava a seguinte oração:  “São Miguel Arcanjo, defendei-nos neste combate, sede o nosso auxílio contra as maldades e as ciladas do demónio. Instante e humildemente vos pedimos que Deus sobre ele impere. E vós, Príncipe da Milícia Celeste, com esse poder divino, precipitai no inferno a satanás e aos outros espíritos malignos que vagueiam pelo mundo para perdição das almas. Amen.”
Na medicina popular, sempre aliada ao “poder” da oração e dos diversos rituais do seu exercício, há uma invocação que, por norma, nunca falha – a invocação do S. Silvestre. Ora, quem é este “S. Silvestre?” Este santo é celebrado no dia trinta e um de Dezembro de cada ano e dá o nome a vários eventos. Nomeadamente ao das tão concorridas e conhecidas “corridas de S. Silvestre”. E numa lenda onde ele é também “herói”, está a base da existência da ilha da Madeira, a denominada “Pérola do Atlântico”, uma das lágrimas dos olhos de N. Senhora, transformadas em pérola, sendo a da Madeira uma delas. Adiante. Este santo foi papa da Igreja Católica (33º). Mas um santo que, à mistura de milagres  também fez  retaliações a quem o tentou aprisionar, para o matar, bem como ao que foi o seu “mestre ( um santo vingativo): todos, sofreram  “na hora” os castigos como causa  dos maus actos daqueles. Ora, deve ter sido por isto que depressa o esoterismo, de S. Silvestre se “apoderou” e ficou, e ainda está intimamente associado à prática da medicina dita “popular”. Na verdade, (quase) todos os rituais do exercício desta “medicina popular terminam pela invocação deste santo. Como esta, por exemplo, contra os inimigos: “ Oh São Silvestre, grande lutador em defesa da fé e dos humildes, que desbarataste os infiéis seguidores de deuses pagãos, que venceste as batalhas contra os mouros e contra os do islão, que feriste e abrandaste o vosso coração empedernido, que em vida domaste serpentes venenosas, pítons e voadoras, sê meu pastor. São Silvestre, guardai-me dos perigos e defendei-me na fé, que contra mim não haja feitiço, nem erva daninha, nem pós e nem pedras que me peguem. Livrai-me das insídias dos inimigos que contra mim tramam à sombra, à treva, com o vosso poder, todos eles virão pedir-me perdão. Pela glória da luz.  Pela força das águas. Pela pureza do fogo, pelo canto do ar. Que assim seja, assim será. Ámen.”
Chama-se a atenção para esta curiosidade histórica: os árabes descendem de Ismael (profetizado homem para a guerra) filho de Abraão e da escrava Agar - nesse tempo ser casado e ter concubinas como Abraão tinha, ao invés de ser pecado, Deus até abençoava.  E isto por habilidades de ciúmes femininas ao tempo, para ser este o herdeiro de Abraão.  Os árabes ou agarenos, ou ismaelitas, se vêm desse tempo, o islão nasceu no século sexto da nossa Era. Logo, só três séculos depois de S. Silvestre. Há, por isso, aqui, ou uma confusão na utilização do vocábulo “islão”, ou uma imprecisão histórica. O que, todavia, não prejudicará a eficácia da oração ao S. Silvestre contra as maleitas.


Com o abraço amigo de sempre.