A descredibilização do PS – Vizela

Eugénio Silva

2019-10-10

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Quando terminar a redação deste texto encontrar-me-ei ainda longe do país, de onde saí depois de ter exercido o meu direito de voto antecipado nas Eleições Legislativas 2019. Só após o regresso terei a comprovação de duas certezas: que o PS, onde estou filiado, manterá a tradicional hegemonia triunfadora no concelho; e que a líder da concelhia, ufana, colar-se-á a essa vitória, acabando por evidenciar que tal triunfo não adveio do seu empenho, trabalho, mérito e prestígio. É que, na atual conjuntura, não passaria de delírio demagogo, de muito desplante, querer equiparar o prestígio e a credibilidade política do PS nacional e do seu líder ao do PS local e da sua dirigente. Infelizmente, a diferença é abismal.
Entendo que lealdade não é seguidismo cego e obediente, não é concordância acrítica nem tão-pouco calar erros clamorosos que devem e deviam ser evitados. Por isso, terminado que está o período de campanha e do natural júbilo festivo, o que importa agora é falar do futuro político. E, mais uma vez, reafirmo que esse porvir apenas se construirá quando a direção do PS – Vizela prestar contas e explicações quanto à preocupante descredi-bilização em que atolou o partido e quanto à sua inépcia em construir uma dinâmica política que se estabeleça no futuro em alternativa séria, capaz e credível. No entanto, o PS – Vizela só poderá aspirar a constituir-se em alternativa de poder – o que será sempre funda-mental para um concelho mais próspero e democrático – quando re-conquistar, primeiro, a credibilidade perdida. Contudo, é por demais claro que os programas políticos e as promessas eleitorais só podem ser credíveis se quem os anuncia também o for.
Ao longo da sua história, o PS – Vizela fundou-se na reputação de uma organização política pragmática, competente, responsável e, acima de tudo, respeitada e respeitadora. Nos dias que correm, porém, a imagem oferecida é uma confrangedora antítese, confe-rindo-lhe uma das mais graves crises da sua existência. É triste observar a sua presidente, atascada em trapalhadas sem fim, refugiar-se numa cortina de silêncio sobre as sucessivas suspeições que sobre ela incidem, crendo que com o passar do tempo e com tal silêncio acabarão por ser esquecidas ou postergadas. E mais triste ainda é constatar que aqueles que integram a Comissão Concelhia (CC) acatam a teoria do vergonhoso silêncio conivente. Não percebem que têm deveres na condução do partido e que, de um modo ou de outro, todos têm responsabilidades políticas por inacão, cumplicidade, encobri-mento, omissão, ignorância, ocultação, ou indiferença.
 Não lhes interessa, não querem saber, que, de tempos a tempos, a sua líder apareça associada a comportamentos anómalos, difundi-dos por diversos órgãos de informação nacionais, regionais e locais.
Desta vez, a irregularidade denunciada prende-se ao facto de, enquanto vereadora do anterior Executivo Municipal, ter aceitado um convite de uma empresa de informática para uma viagem a Istambul, cidade turca, pretextada como evento de trabalho. No entanto, a investigação e o Ministério Público consideraram tal evento”predominantemente recreativo”, ordenando extrair certidões dos autos para que os factos referentes a cada um dos muitos outros Municípios envolvidos nesse processo fossem investigados em processos autónomos. Nestas circunstâncias, pende sobre a presidente da CC do PS-Vizela fortes indícios que irá ser acusada pelo Ministério Público do crime de recebimento de vantagem indevida.
Não é a probidade nem a honestidade política de quem quer que seja que está, ou esteve, em causa.
Que fique claro que, desde que não haja razões concretas nos seus atos que obriguem, não julgo, nunca julgarei, o carácter dos homens públicos.  No entanto, no que diz respeito a escrutinar as suas decisões e/ou omissões é nosso dever, é nossa obrigação, pugnar para que as tornem acessíveis à avaliação pública e ao julgamento dos cidadãos. Hoje, pressente-se que tudo aquilo que deveria ser claro, óbvio e transparente aos olhos de qualquer mortal tornou-se um enigma que desejam indecifrável destinado a escapar à mais sofisticada compreensão humana.  
No exemplo de comportamento anómalo referido, bem como em tantos outras trapalhadas nunca esclarecidas, nunca se encontrará virtude política que engrandeça o partido. E onde não há virtude política muito menos se poderá achar o rigor, a seriedade e a transparência, condições indis-pensáveis para se poder restaurar a confiança perdida e aspirar à alternância do poder. Por isso, sustentado em princípios éticos e democráticos, a pensar no futuro e na credibilização do PS-Vizela, convido-os a prestar um grande serviço ao partido: demitam-se dos cargos que não cumprem. Todos!