A ascensão de um anjo

Hélder Magalhães

2020-01-09

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Desolado, de espírito quebrado, à imagem das árvores vistas umas horas atrás, durante o passeio pelas margens do Vizela, assoladas pelos vendavais e transgressão das correntes, Camilo deambula pelas ruas nocturnas, acometidas pela aspereza de Janeiro. O médico mandara-o às termas, a um ansiado milagre pela intercessão das águas sulfurosas sobre o avanço das inúmeras maleitas que o trespassavam sem apelo nem agravo. Não fossem os cuidados da serventia onde se encontra hospedado, servindo-lhe caldos e estufados perfumados, além das porções generosas daquele divino doce, o Bolinhol, que no seu íntimo acende uma gula até então desconhecida - mandará já o recado de aviar um para a sua Ana Plácido -, e teria como consolo a resignação às horas cravadas de dor.
 
Mais adiante, desembocando junto ao quartel dos bombeiros, parece-lhe ouvir notas do Hino Nacional. Uns passos adiante, com o som mais próximo, a confirmação. Decide entrar e espreitar, evitando grande alarido. Senta-se ao fundo, a um canto, junto de um aquecedor a gás. No palco, o maestro conduz a orquestra com ímpeto e vigor, os instrumentos respondem ao chamamento em harmonioso andamento, levando os presentes ao rubro. Estivesse aqui o deputado Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda e mandaria construir um teatro de fazer corar o São Carlos; até o Libório discursaria com a sua pompa e circunstância, atrelado ao dicionário.
De volta ao quarto onde se encontra hospedado com delícias na alma, flutuando na melodia do flautim tocado por um anjo, lembrando-lhe o seu filho Jorge, sentado nos ramos da Acácia.
Nunca mais havia provado o elixir da felicidade, dos primeiros anos da juventude passados em Vilarinho de Samardã, porém, o concerto desta noite augurava um feliz ano novo.
 
Nota: narrativa ficcional com o intuito de parabenizar a Real Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Vizela e a Sociedade Filarmónica de Vizela, pelo extraordinário Concerto de Feliz Ano Novo.