2023

Domingos Pedrosa

2018-04-19

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… É o ano que o Presidente da República pensa que terá fim o sofrimento dos sem-abrigo em Portugal. Garantir um tecto a todos que não o têm. Vai ser difícil já que o problema tem, afinal, uma dimensão que ninguém imaginava: “São muitos mais milhares do que tínhamos pensado. O número não deve ficar muito aquém dos dez mil”, revelou naquela noite fria, no final de uma visita a um pavilhão desportivo que a Câmara de Lisboa abriu, para apoiar tantos “ desgraçados”.
O número dos sem-abrigo apontado pelo Presidente da República é mais do dobro do registado pela Segurança Social em 2016, quando não ia além dos 4000. Por isso, as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa surpreenderam as instituições que trabalham no terreno, bem como os principais Municípios que não se tinham apercebido do aumento do problema.
Era impossível naquela noite varrida por tamanha vaga de frio, ser insensível, ficar indiferente às imagens que a televisão mostrou: Chegavam sozinhos, pelo seu pé, ou em grupos transportados por carrinhas das associações e da Autarquia. Uns traziam sacos com o pouco que tinham, outros apareceram de mãos a abanar. Quase só homens, mas apareceram também algumas mulheres, escanzeladas, que metiam pena. Uns, novos ainda, outros mais velhos, mas todos aparentavam idades que não tinham. No rosto de todos, as marcas de uma vida feita de desgraças, azares, doenças, opções erradas. Via-se nas rugas, nos dentes que faltavam, no olhar mortiço. 
A recebê-los, três técnicos registavam os dados possíveis além do nome, idade e estado civil. Queriam saber se estavam a dormir na rua, que doenças tinham, se recebiam algum subsídio. Depois, lá dentro, voluntários das mais de vinte associações, aumentavam-nos, prestavam-lhes cuidados de saúde, davam abraços e beijinhos aos que já conheciam há vários anos das ruas que percorrem à noite, todo ano, faça frio, chuva ou calor.
Hoje dorme aqui? Perguntaram a um que sempre mostrou preferência em dormir na rua, tendo a cobri-lo grossos e velhos cartões, nas noites gélidas, fustigadas por nortadas. Há casos, disse um psicólogo, muito difíceis de solucionar, porque só na rua se sentem bem, como é o caso dos que têm problemas de saúde mental e longos percursos de dependência de álcool ou drogas. E deu o exemplo de um cidadão espanhol de 85 anos, praticamente cego, que desde 2013, vive nas escadarias do Cinema São Jorge, em Lisboa, entre lixo e farrapos. Já esteve internado no Hospital Júlio de Matos durante quatros meses, mas quis voltar à rua e de lá não tornou a sair. Nem nas noites mais frias quando as equipas de ajuda tentam encaminhá-lo para um abrigo. Diz que não, que quer morrer ali.
Em relação ao desígnio do nosso Presidente da República de acabar com os sem-abrigo, o psicólogo afirma que a única coisa que se poderá garantir é que ninguém fique na rua por mais de 24 horas por falta de alojamento, mas, se a pessoa quiser ficar e estiver lúcida, nada se pode fazer. Só em ditaduras é que não há sem-abrigos, como aconteceu no Estado Novo, em que eram presos ou deportados.
Garanto que esta afirmação é verdadeira, já que vivi toda a longa noite fascista que Portugal “dormiu”, todo o período que Portugal viveu amordaçado. E lembro-me de em 1940, aquando das comemorações dos 800 anos da Fundação de Portugal- as célebres “Centenárias”, como ficaram conhecidas- a policia em Guimarães (já que foram lá as comemorações) deter todos os pedintes ou quem tinha ar de sem-abrigo. É que todo o corpo diplomático creditado em Portugal tinha sido convidado a assistir às cerimónias e, mal parecia que num país onde imperava o lema: Deus, Pátria e Família, vagueasse pelas ruas a pobreza, o obscurantismo, o retrato do País. E não foram temporariamente detidos, só os pedintes. Quem a polícia sabia que era do reviralho, ou suspeitou, também. Nas ruas, nos passeios à espera da passagem de Carmona e de Salazar, só podia estar gente resignada com a miséria que vivia, era essa a vontade de Deus, como dizia o Cardeal Cerejeira. 
Lembro-me de ver a multidão em saudação fascista, de braço esticado, uns, com o direito, outros com o esquerdo, e alguns com os dois a responderem a um desatinado Salazarista, que constantemente perguntava bem alto: Vimaranenses, quem vive, quem manda? E a turma desvairada, encharcadinha de fascismo, catolicismo e “pobresismo”, ululava: Salazar, Salazar, Salazar.