“(…) está na génese, está na tradição do povo de Vizela (…)”

Eugénio Silva

2019-03-14

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Comemorar-se-á, no próximo dia 19 de março, o vigésimo primeiro aniversário da restauração do concelho de Vizela. A pretexto desta efeméride e de acordo com o programa oficial entretanto apresentado, iremos, ao longo de três dias, ser contemplados com um colossal banho de música, a fornecer por uma plêiade de artistas nativos e forasteiros. Este desígnio, segundo o anúncio público do líder do executivo municipal, prende-se à necessidade de se “criar alguns atrativos para dar alguma sustentabilidade ao cartaz e reafirmar que está na génese, está na tradição do povo de Vizela (…) os bailes, as festas e atrair as pessoas de fora pelos eventos que podemos fazer (…)”. Deste modo, somos levados a acreditar que, no futuro, a Agenda Cultural de Vizela se resumirá, predominantemente, à oferta musical em detrimento de outras áreas culturais ligadas às Artes e às Letras.
A restauração da nossa autonomia, alcançada no dia 19 de março de 1998, e o denominado Tratado de Tagilde, negociado no dia 10 de julho de 1372, na freguesia homónima do atual concelho de Vizela, constituem dois dos acontecimentos mais relevantes da nossa História. Em minha opinião, nunca se poderá compreender a restauração da independência administrativa de Vizela sem a compreensão das razões que presidiram à assinatura do referido tratado no vasto e rico território de Riba de Vizella, concedido por doação e mercê, em 24 de maio de 1361, pelo rei D. Pedro I ao príncipe D. João de Castro, seu filho e de D. Inês de Castro, e a todos os seus legítimos sucessores. Sobre estes factos históricos, ao longo dos 21 anos de autonomia, que trabalhos historiográficos foram promovidos pelo município, tendentes a colmatar a nossa ignorância sobre o nosso passado medievo? Nenhum, pois, como parece, isso significará má gestão de dinheiros públicos. Demais a mais, a paixão da população vai para as festarolas e os bailaricos, o “que está na génese, está na tradição do povo de Vizela (…)”, relembre-se.
A propósito da comemoração oficial do 638.º aniversário do Tratado de Tagilde, realizada em Tagilde, com todo o compreensível entusiasmo, foi-nos garantido pelos responsáveis autárquicos de então (o líder do município e a líder da freguesia) haver já “autorização para irmos buscar réplicas de alguns documentos originais que estão em Inglaterra (…)”. Por feliz acaso, já algum afortunado munícipe os consultou?
Seria de louvar se um qualquer responsável pela gestão municipal se empenhasse em seduzir um medievista consagrado a produzir um trabalho historiográfico, sério e profundo, em torno do Tratado de Tagilde de 1372. Para tal, mais do que o saber, bastaria um pouco de sensibilidade e respeito pelo passado, o que levaria a cativar uns trocos de um algum cachet, pago ou a pagar, a uns quaisquer Anselmos Ralph’s ou a Toy’s. Conheceríamos, assim, as repercussões operadas no território concelhio ditadas pelo fim da dinastia Afonsina e o início da de Avis; entenderíamos o príncipe D. João de Castro interessado pela situação politica coeva europeia e, particularmente, pela da Península Ibérica, apoiando D. Fernando nas legítimas ambições ao trono de Castela; perceberíamos as razões porque foi em terras de Riba de Vizella negociado e assinado com os ingleses o tratado de Tágilde; compreenderíamos as razões desta reunião nos domínios do infante D. João, meio-irmão do rei D. Fernando, onde uma fação da nobreza portuguesa e galega, nomeadamente os condes de Andeiro e João Afonso Teles e o irmão da rainha D. Leonor Teles, Gonçalo Teles, acataram no tratado as pretensões do duque de Lencastre, nele denominado “rei de Castela e Leão”; conheceríamos um príncipe amante da caça e dos jogos de guerra, o que explicaria, por isso e para isso, as boas casas para seu alojamento e de seus homens em Tagilde; identificaríamos, no âmbito da crise nacional de 1383-85, as suas ambições ao trono de Portugal, razões que o impeliram a assassinar a mulher, como bem retrata o cronista Fernão Lopes em “Paixão e morte do Infante D. João e D. Maria Teles”, facto que o obrigou ao exílio em Castela e, depois, à prisão em Almonacid, ordenada pelo rival D. João I de Castela, onde veio a morrer em1397; e entenderíamos o confisco das suas terras ordenado por D. João I de Portugal, o que ditou o fim da nossa independência durante longos 590 anos.
 Nestas circunstâncias, acredita-se que a edição de um bom trabalho historiográfico não só esbateria a nossa agnosia crónica como, também, daria mais brilho e riqueza a um qualquer cartaz oficial de comemorações. Só que, convém relembrar, a historiografia parece não interessar à grei e, particularmente, a alguns dos seus dirigentes, pois o “que está na génese, está na tradição do povo de Vizela (…)” são as  festas e os  bailes.