Engenhocas? Não. Um Génio!

Domingos Pedrosa

2017-04-13

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Há dias encontrei num Shopping um amigo que folheava uma revista sobre engenharia, Ao ver-me, disse-me: Sabe, desde que li num artigo seu que Edgar Cardoso era um génio, projectista da Ponte da Arrábida e de outras, interessou-me saber coisas do famoso engenheiro. E sabe porquê? Pela simples razão do meu pai ter sido um dos operários da construção da bela ponte. Olhe – respondi-lhe – o meu pai também lá andou, e teve aos ombros a responsabilidade – dada por Edgar Cardoso – de chefiar a brigada de carpinteiros que fez o cimbre de madeira (e metálico) para aquele grande arco de betão.
Na conversa breve que tivemos, disse-lhe apenas que Edgar Cardoso era um Génio de mau génio – segundo quem privou com ele – e “herói” de algumas histórias que eu conhecia. Prometi contar-lhas, e, se está interessado ainda, será hoje se me estiver a ler. São histórias de um genial engenheiro que as revistas de engenharia não contam. São curiosas, verá.
Como já tinha afirmado, o engenheiro Edgar Cardoso foi único a projectar, dono de si e das suas opiniões, audacioso ao ponto de se fazer ouvir por ministros, primeiros-ministros e presidentes, e a todos ser capaz de dizer “de nada percebem?”; Foi um engenheiro – autor de mais de 500 pontes e projectos, um génio a conceber as mais elegantes pontes, obras arrojadas que teriam lugar no “Guinness Book” se à data existisse.
Projectou praticamente só, tinha horror a computadores (“Os engenheiros novos põem os computadores a “inteligenciar” por eles”, disse uma vez numa entrevista). Homem de prodígios, não precisou de computadores para fazer cálculos e desenhar a Ponte da Arrábida – à data o maior arco de betão do mundo, e a de São João – ainda detentora do recorde mundial para o maior arco de uma ponte ferroviária daquele tipo, e fez ainda a primeira ponte tirantada (suportada por cabos) em Portugal (a da Figueira da Foz, hoje Ponte Edgar Cardoso). “Eu não faço uma ponte igual à outra, cada obra é um momento de inovação e de busca de novas soluções mais racionais e económicas”, dizia. Se todos lhe reconheciam a criatividade e elegância do desenho, muitos criticavam o desperdício de recursos e a factura das inovações: A Ponte São João arrancou com um orçamento de 6,3 milhões de contos e terminou com um custo superior a 40 milhões. Ferreira do Amaral, o ministro que pagou a pesada factura, justificou: Afinal, a São João é um monumento! Claro que é, basta ser uma criação de Edgar Cardoso, que, para alguns, era mais “um engenhoso do que um engenheiro” por desenvolver também criações e soluções bem prosaicas. É o caso da máquina fotográfica que ele tinha no seu ateliê. Montada num motor de limpa-pára-brisas de automóvel – uma invenção sua que lhe permitia fazer fotografias de 360 graus sem distorção. O que não havia no mercado, se ele precisava, inventava. Outra solução prosaica (que lhe chamaram engenhoca) foi o caso das chapas de metal que fez instalar junto à base dos pilares da Ponte D. Luís, dotadas de uma curvatura junto ao solo que a faz salpicar, (experimentem lá ir mijar!) as calças e sapatos a quem se atrever a usar o local como sanitário. Assim resolveu o problema de corrosão por ácido úrico. Mas também o consideraram escultor, quando para explicar ao Gabinete do Nó Ferroviário do Porto como seriam os pilares da Ponte São João, mostrou uma cenoura talhada a canivete com a forma de pilares. E até bruxo o consideraram: Na Índia, quando visitou uma ponte sobre o Mandovi, adivinhou que ela ia cair. Olhou para ela, e disse: Esta ponte vai cair. E caiu mesmo. “Eu avisei, mas disseram que era inveja minha”, lamentou quando soube da derrocada da ponte.
Ele intuía como ninguém, dizem hoje professores de engenharia, e como ninguém impunha a sua vontade. Quando “uns artistas do Governo” quiseram pintar a Ponte da Figueira de uma cor forte, ele, que a tinha imaginado de cores claras, argumentou que a ponte não suportava cores escuras por implicarem “muito maiores esforços térmicos”. Assim impôs a sua vontade. E quando Américo Tomás mostrou receio de participar numa cerimónia sob a Ponte da Arrábida ainda em construção, ele deu-lhe tantas garantias e tanta coragem, que o presidente lá foi “branco como a cal”, sempre a olhar para cima e a perguntar: “Isto não vai assapar?”, segundo a descrição de um sobrinho de Edgar Cardoso. Foi um engenheiro bem tratado pelo Estado Novo, mas afrontou Salazar na ponte sobre o Tejo, quer sobre a concepção quer por o projecto e a obra terem sido entregues a engenheiros norte-americanos, para que Eisenhower “não fizesse barulho” contra a Guerra Colonial em que Portugal estava envolvido (O projecto de Edgar Cardoso tinha sido rejeitado), e ele desabafou assim.
Mas Edgar Cardoso não fez só pontes. Com simplicidade explicou como fazer a extensão, sobre estacas, da pista do Aeroporto do Funchal e como fazer as fundações revolucionárias do edifício do BCP nas Avenidas Novas em Lisboa.
A maior de todas as controvérsias de Edgar Cardoso, foi a Ponte São João. O engenheiro dizia que a obra não estava segura devido “às pressas da inauguração”, e nem o presidente Mário Soares nem o primeiro-ministro Cavaco Silva, nem o engenheiro foram ao corta-fita. No local ficou uma placa mentirosa: “… Inaugurada aos 24 dias do mês de Junho de 1991, por sua excelência o primeiro-ministro…” Edgar Cardoso nunca consentiu um erro, (como poderia acontecer naquela ponte? O que não gostava era de pressão) e no fim da sua vida activa, concentrou as atenções ao provocar o LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil). Questionou a sua competência, o que lhe custou um processo na Ordem a propósito da solidez dos pilares do Viaduto Duarte Pacheco e da robustez da pala do velho Estádio de Alvalade, sobre a qual pulou, pulou, e voltou a pular, para comprovar que tinha razão ao garantir-lhe solidez. Portugal acreditou: Se Edgar Cardoso dizia que não caía, não caía, mas não convenceu as autoridades. É verdade, o professor só não conseguiu convencer o LNEC, já que a pala foi reforçada, nem os técnicos espanhóis que deveriam aprovar o projecto para a Ponte Internacional sobre o Guadiana. Eles queriam ver o estudo, verificar os cálculos, mas Edgar Cardoso só tinha desenhos e modelos para mostrar. Projecto, nada. Os espanhóis não confiaram e a Junta Autónoma das Estradas teve de lhe retirar a obra. Agastado, alguém o ouviu lamentar: Porque foi que a Padeira de Aljubarrota só matou sete? Amigo, dos muitos episódios na carreira de Edgar Cardoso, só tinha espaço para contar estes. Se não os conhecia, fico contente e a promessa cumprida. Um abraço.