Marco Martins: “Uma enorme alegria, não posso pedir mais"

Atleta vizelense faz balanço à vitória no "The Munga" na África do Sul

O atleta vizelense, Marco Martins, conseguir uma proeza internacional no BTT, ao assegurar a vitória na ultramaratona The Munga Race. Competição Non Stop na África do Sul, onde bateu o recorde da prova com menos 11horas e cinco minutos, dormindo alguns minutos, no total de 58 horas, o que é um extraordinário feito, para este atleta de resistência e longas distâncias. Na passada terça-feira regressou a Portugal, com direito a receção calorosa no aeroporto. À Rádio Vizela e ao RVJornal contou como conseguiu esta vitória, numa prova em que há já alguns anos sonhava participar.

 

RVJ (RVJ) – Como está a viver estes dias após a vitória no Munga?

Marco Martins (MM) – Para já ainda estou a tomar conta da realidade. Não contava que esta prova tivesse tanto impacto, a nível nacional e ainda me estou a perceber de muita coisa. Cheguei esta terça-feira e lá havia pouca informação, ia sabendo das coisas, pelo que me diziam os amigos e confesso que tanto mediatismo é um bocado estranho, não estou mesmo habituado.

 

RVJ- Apesar de já ter estado em outras provas internacionais, sentiu que desta vez olharam para si de outra forma?

MM – Não, nunca, também nunca tinha ganho nenhum desses campeonatos. Esta prova está a esse nível, mas é uma prova de caraterísticas diferentes, pois é considerada a mais dura do mundo e ganhá-la, acho que é um grande feito.

 

RVJ – Participar nesta prova era de alguma forma, um sonho para si?

MM- Sim, já andava para participar nesta prova há cerca de três anos, mas só neste ano consegui reunir todas as condições necessárias para ir à Africa do Sul. Ou seja conseguir encaixar esta prova no meu calendário, entre os campeonatos da europa e os campeonatos do mundo. A curta distância entre as provas não me dava tempo suficiente de recuperação e preparação para uma prova com esta exigência. Este ano o Mundial foi mais cedo, do que o normal o que me deu seis meses para preparar esta prova, o que foi suficiente. Meio ano de intenso trabalho, feito em Vizela.

 

RVJ – Fazendo o balanço da sua participação no Munga, foi o que estava à espera?

MM – É difícil conseguir-me lembrar de todos os pormenores, mas assim por alto posso dizer que fiquei num grupo isolado de 13 até aos 160 km, depois tive uns problemas com o meu saco e tive que parar e perdi uns dez minutos, que recuperei na paragem do primeiro abastecimento aos 200 km. A partir do primeiro abastecimento não se pode andar em grupo, se forem dois têm que seguir lado a lado, ou então com uma distância de quinze metros, entre um e outro. Na segunda paragem aos 400 km, o meu adversário optou por fazer uma paragem mais prolongada e eu aproveitei e segui sozinho. Depois só na quarta zona, quando já tinha duas horas e meia de avanço para o segundo é que dormi cerca de 20 minutos, por volta dos 750 km, já tinha feito nessa altura, 40 horas de prova. Dai para a frente fiz tudo até ao fim, ainda aumentei a vantagem, mas foi a parte mais difícil, pois as temperaturas chegaram aos 48 graus centígrados, numa reta com cerca de 80 km, sempre contra o vento. A parte final foi muito complicada, para mim e para todos os outros.

 

RVJ – Teve um bom início, isso foi importante?

MM – Eu queria começar na frente e tentar controlar a prova a partir dai. Não foi fácil, pois os outros participantes impuseram um ritmo muito elevado, desde o início, mas não sabia qual era a estratégia de cada um, se iam andar mais depressa e fazer paragens mais prolongadas, mas pelo menos queria acompanhá-los na fase inicial.

 

RVJ – Nos momentos mais difíceis, em que se pensa, a que se apela para continuar a pedalar?

MM – Passa muita coisa pela cabeça, mas no final já nem me lembro. Tento não olhar para a frente para ver a imensidão que ainda tenho que percorrer e não olhar muito também para o conta-quilómetros, porque nessa altura eles não passam. É tentar chegar ao próximo abastecimento, respirar um bocado, tentar colocar a cabeça concentrada e seguir em frente.

 

RVJ – Conseguia perceber, que estava bem e a bater o recorde da prova?

MM – Sim, através do meu GPS conseguia perceber qual era o recorde anterior e sabia a média que precisava de fazer, para bater esse recorde. Sabia que a média estava acima e a certa altura percebi que iria bater esse recorde.

 

RVJ – E o que sentiu, quando chegou ao final?

MM – Senti principalmente um grande alivio e é claro uma grande alegria. Mas a prova é tão dura que a certa altura termina-la é já uma alegria, vence-la é uma alegria ainda maior. Acho que não podia pedir mais.

 

RVJ – Segue-se a recuperação…

MM – É uma fase complicada, agora não estou a sentir ainda muito, tudo o que fiz, a não ser os quilos que perdi. Mas sei que daqui a algumas semanas, vai ser muito pior. Preciso de alguns meses para a recuperação.

 

RVJ – O que se segue em termos competitivos?

MM- Ainda não estou a pensar nisso, estou já inscrito no The Munga do próximo ano, pois a inscrição gratuita é um dos prémios para o vencedor, mas ainda não sei se vou voltar já. Para já quero descansar, depois logo que vê.

 

RVJ – A quem dedica esta vitória?

MM – Dedico aos amigos, a toda a gente que me acompanhou e me apoiou e que foi muita, mas em especial dedico à família, à minha mulher e à minha filha.