"É mais fácil dar do que pedir porque ouvimos de tudo"

Na edição de 16 de janeiro do Corta e Prega da Rádio Vizela estivemos na companhia de Amélia Campelos.

É conhecida em Vizela pela sua ligação ao voluntariado, nomeadamente ao escutismo. É também uma das vozes de um dos programas mais antigos da Rádio Vizela e que ainda hoje se encontra em emissão – “Igreja em Terras de Vizela”.

VJornal (RVJ) – Como é que descreverias a Amélia Campelos a um amigo?

Amélia Campelos (AC) – Não é fácil. A primeira impressão que ficam de mim não é a de uma pessoa muito simpática. Acham-me muito séria, mas depois não sou nada disso. Sou amiga do amigo.

RVJ – Onde é que nasceste?

AC – Nasci em S. Miguel, no hospital. Vivi junto da Ponte Velha até aos oito meses e depois fui, e até hoje, para a Rua de Frades.

RVJ – Como foi crescer naquele lugar?

AC – Foi muito bom, tínhamos tudo pertinho, o Parque que era uma maravilha, na altura, existia o Campo de Tiro, a Cascalheira… Éramos muito felizes a brincar na rua.

RVJ – Que recordações é que guardas da tua infância?

AC – Tinha escola todo o dia, eu andei no Patronato mas depois, no fim do jantar, íamos todos brincar para o Campo de Tiro. Aprendi lá a andar de patins, até cheguei a estar na patinagem artística.

RVJ – E os mergulhos na Cascalheira?

AC – Foram muito bons. Fugíamos para o rio sem os pais saberem e depois, quando chegávamos a casa, levávamos tareia. Fazíamos quilómetros para trás e para a frente entre o Parque das Termas, o Chalé e a Ilha dos Amores só para encontrarmos o local para dar o melhor mergulho. Felizmente, nunca nos aconteceu nada, mas toda a agente dizia que o Rio Vizela era muito perigoso e lembro que, naquela altura, dois rapazes se afogaram. Por isso, os nossos pais ficavam sempre com muito medo.

RVJ – Como olhas hoje para o Rio Vizela?

AC – Com muita tristeza. Aquilo era uma praia fluvial, era tudo de bom, aquele areal, aquelas pessoas todas, umas a lavar roupa, outras a lanchar, outras a tomarem banho. Era muito saudável, muito giro…

RVJ – Como é que foi fazer a escola primária no Patronato?

AC – Foi muito bom. Já estava lá a Fernandinha, eu ainda andei na pré-primária com a Maria Leonor, depois a minha professora da 1ª à 4ª classe foi a Maria Amparo.

RVJ – Lembras-te do centro da cidade cheio de gente?

AC – Sim. A rua principal, os cafés, o snack-bar, o Casino, lembro-me perfeitamente que, ao domingo à tarde, era uma procissão de gente para cima e para baixo.

RVJ – Como é que viveste a tua juventude?

AC – Aos 14 anos fui para os escuteiros. Algo que me ensinou a ver as coisas de outra maneira, uma nova ligação com a natureza, a transmissão de valores. E fazíamos imensas coisas. Fazíamos as próprias jangadas com que descíamos o Rio Vizela, desde Fafe até à foz. 14 anos é já uma vida. Há dias em que parece que foi ontem mas também admito que há outros em que me sinto cansada e digo: estou farta disto, vou deixar. Mas a verdade é que já são tantos anos e tanta gente que já passou por mim…

RVJ – Não há assim um acampamento ou outro que te tivesse ficado registado na memória?

AC – Claro que sim. Quando fui a primeira vez a Londres, fui à Ilha de Brownsea, onde se realizou o primeiro acampamento do fundador Baden-Powell.

RVJ - Hoje ainda há muitas crianças a quererem ser escuteiras?

AC – Não. A oferta é muita. O futebol está em primeiro lugar. Os miúdos hoje têm muitas atividades e os pais também querem o seu tempo. Enquanto que a minha mãe nunca me foi levar aos escuteiros, hoje é impensável um miúdo de 14 anos ir sozinho, o que exige também muita disponibilidade por parte dos pais.

RVJ - Ainda te lembras do teu primeiro Chefe nos escuteiros?

AC – Foi a D. Maria Alcina. Era uma referência para mim, ainda hoje o é. Era, de facto, uma Senhora.

RVJ – Também desfrutaste dos loucos anos 80 e 90, onde não faltava o rock em Vizela?

AC – Desfrutei. Vivi tudo o que tinha para viver. Não me arrependo de nada.

RVJ – Como era Vizela naquela altura?

AC – Tinha muita noite, atraía muita gente de fora. A noite começava cedo e éramos mais família. Andávamos sempre em grupo, onde fosse um, iam todos.

RVJ – Guardas muitos amigos desse tempo?

AC – Sim. Quase todos os meus amigos são de longa data.

RVJ – Como é que se preservam amizades por tanto tempo?

AC – São amizades puras, mesmo sinceras, nunca tiveram por base interesses.

RVJ – Hoje em dia quase não há empregos para vida e tu és prova disso mesmo…

AC – Sim, já passei por alguns. Agora estou aqui na Unidade de Cuidados da Santa Casa da Misericórdia de Vizela. Sou auxiliar. Está tudo a correr bem. Todos os dias aprendo coisas novas com os utentes. Se calhar, sempre tive este lado, já tomei conta dos meus tios que viviam sozinhos.

RVJ – Como é isto de ser cuidadora?

AC – Às vezes não é fácil. Mas temos de cuidar, porque também não é fácil virar as costas. Não tenho coragem para isso.

RVJ – Mas é preciso ter alguma coragem, estofo emocional…

AC – Sim. Tu deixas de fazer muita coisa na tua vida e há coisas que ficam para trás.

RVJ – Também costumamos ver-te à porta dos hipermercados nas campanhas de angariação de alimentos para famílias em dificuldade. É uma tarefa fácil ou, por vezes, pode ser ingrata?

AC – Muito ingrata. É mais fácil dar do que pedir porque, infelizmente, ouvimos de tudo.

RVJ – Entretanto também fazes parte da Família Rádio Vizela há muitos anos. És uma das vozes de um dos programas mais antigos - “Igreja em Terras de Vizela”. Ainda te lembras da primeira vez que entraste cá?

AC – Lembro-me. Tremia como tudo, foi tão difícil ler um texto, nunca mais acabava, eu tremia, eu transpirava, foi muito difícil.

RVJ – A Amélia Campelos é solteira e boa rapariga. Também é bem resolvida com a vida que escolheu ou foi a vida que te escolheu a ti?

AC – Sou bem resolvida com a vida que escolhi. Foi esta a vida que eu sempre quis. Nunca pensei em casar, nunca pensei em ter filhos. O meu relógio nunca despertou. A minha mãe reformou-se muito cedo e sempre houve crianças lá em casa e, para mim, são como meus irmãos. São família.

RVJ – Mas ainda estás aberta à possibilidade de um grande amor?

AC – Não, acho que já não tinha paciência para isso. Levarem-me ao altar estaria fora de questão. Nunca tive essa ilusão de casar, de usar o vestido de noiva, isso nunca foi para mim.

RVJ – Mas amor é o que que não falta na tua vida. Queres-nos falar do Zé e da tua Maria?

AC – Ainda antes, chegaram a minha Luísa e o meu Eduardo. Agora tenho o Zé e a Maria e que são os filhos da Anabela [Oliveira], mas que também são como meus filhos. É um amor que não se explica.

RVJ – E os teus pais? Que lugar ocupam na tua vida?

AC – O meu pai já não está, mas estará para sempre. Era uma referência para mim, mas fiz muito bem o luto do meu pai. Acompanhei-o sempre até ao último momento. Eu queria o meu pai aqui, mas era o outro meu pai, não como ele estava, isso já não era viver. Não podemos ser egoístas ao ponto de querermos as pessoas para nós, mesmo que estejam a sofrer. Agora estou com a minha mãe, vivo com ela, é um bocadinho diferente, mas é a minha mãe e que Deus a tenha por muitos anos.

RVJ – Qual é a maior loucura que ainda tens por fazer?

AC – Gostava de fazer voluntariado fora, nunca se proporcionou, mas era uma das experiências que eu gostava de viver.