“Dá mesmo vontade de escrever e gritar algumas palavras"

O músico João Filipe foi o convidado da edição de 04 de julho do Corta e Prega da Rádio Vizela.

Ele que não pára, contando no seu palmarés com vários projetos, destacando-se os Subject, os Atic, os Athmos Shere e ainda Noctua. O vizelense dirige a escola Musicanima, foi autor do programa de rádio Variasons e também mentor do Contarolando. É uma referência na música em Vizela.

RVJornal (RVJ) – Como é que se deu esta tua ligação à música?

João Filipe (JF) – Cresci com as influências dos meus irmãos, felizmente com boa música. Também me recordo que a minha mãe, quando eu era pequenino, me levava com ela à missa e fascinava-me ver o senhor tocar orgão, ainda a pedal. Ia sempre para o pé dele e desde aí comecei a chateá-la para aprender aquilo que eu nem sequer sabia o nome. Foi depois aos sete anos, que iniciei a meu percurso de aprendizagem.

RVJ – Como é que começaste?

JF – Como 99% dos vizelenses, com o professor Renato, uma pessoa que eu respeito muito e que foi muito importante para o desenvolvimento de muitos músicos e de muitas bandas que surgiram desde então. Eu fui um deles.

RVJ – Ainda te lembras do primeiro disco que compraste?

JF – Perfeitamente. Sou da geração da cassete. Não havia dinheiro para comprar discos e uma cassete era barata e conseguia gravar de outras emprestadas ou até diretamente da rádio. Foi apenas aos 17 anos, em 1997, que, muito orgulhoso de mim, comprei um leitor de CD e os meus dois primeiros discos. Um muito estranho de uma banda de heavy metal - os Night Ranger - mas com dois excelentes guitarristas e que me foi aconselhado por um professor. O outro foi uma opção minha de uma banda que eu ouvia no MTV, quando este ainda era um canal de música, e que era dos Hole, a banda da Courtney Love, na altura esposa do Kurt Cobain dos Nirvana. Era fascinado pelo single e comprei esse disco a pensar precisamente nessa música que eu já conhecia.

RVJ – Em que momento é que decidiste fazer da música a tua vida?

JF – A música esteve sempre presente. Comecei a dar aulas muito cedo. Via outras pessoas a ensinarem música e eu achava que se estas podiam e eu já estava consideravelmente acima, o fator idade não podia ser impeditivo. Depois comecei a tocar ao vivo e juntamente com o percurso académico, as coisas foram acontecendo… Já numa fase adulta de definição do caminho profissional e da perceção da luta que é seguir o ramo da música, o ensino evidenciou-se como a forma de eu alcançar maior subsistência, principalmente tendo em conta a minha vertente musical.

RVJ – Como foi a fase da vida académica?

JF – Foi uma loucura (risos…) Mas fui para a universidade já com 22 anos, com a consciência de que não podia apenas andar a passear livros. Optei por Educação Visual, também sempre gostei muito de desenhar, porque não me podia dar ao luxo de ir para longe. Estudei em Felgueiras, onde não existia, na altura, o curso de Educação Musical. Já sabia as dificuldades que iria encontrar na área do ensino, mas ainda hoje quero acreditar que só naquilo em que somos bons é que conseguimos realmente fazer algo que valha a pena. Creio que os bons profissionais são os que fazem o que gostam. Curiosamente nunca exerci Educação Visual. Comecei o ensino da música em Vizela nas Atividades Extracurriculares (AEC). Mas desisti [de me candidatar] há já muito tempo, porque iria obrigar-me a deslocar bastante. Optei por outra via, é mais incerta, mas permite-me estar mais próximo da terra e dos meus.

RVJ – Desististe do ensino público ou este é que tem desistido de pessoas como tu?

JF – O ensino público é que desistiu dos professores há muito tempo. Está obsoleto. Talvez daqui a algum tempo possamos pagar todos a fatura. Não demorará muito para haver falta de professores.

RVJ – Houve um período em que as AEC sofreram alterações e tu acabaste por abraçar um novo projeto, a Musicanima?

JF – A Musicanima surgiu, porque… fiquei desempregado. As AECS mudaram muito, não sei se de forma justa ou injusta, o que é certo é que acabamos por sentir que somos despachados sem qualquer problema, independentemente da nossa capacidade profissional. A verdade é que o sistema se alterou, deixei de ter lugar e, obviamente, tive de me virar. Numa daquelas noites sem sono, tomei a decisão de criar a minha própria escola. Tem cinco anos e está a correr bem mas nada é garantido. É um dia de cada vez.

RVJ – A verdade é que és um músico por inteiro: cantas, tocas mas, também, compões e produzes…

JF – Eu não sou cantor, mas canto (risos…) Sou produtor e estou cada vez mais a levar a sério isso mesmo. E, acima de tudo, gosto de compor música.

Tenho muitos projetos, alguns deles públicos, a maior parte na gaveta, porque não há mercado, tudo o que fuja um bocadinho ao mainstream não tem lugar.

RVJ – Chateia-te essa palavra, mainstream?

JF – É o que é. Tudo funciona assim.

RVJ – Houve sempre alguma irreverência na tua forma de estar?

JF – Sempre fui uma pessoa de iniciativa. Comecei a tocar ao vivo aos 13 anos e sempre estive envolvido em montes de coisas. Sempre gostei de tudo o que é feito em grupo e a música foi sempre o ponto fundamental. Sou mais normal do que aquilo que as pessoas possam, às vezes, pensar.

RVJ – Lembro-me de ti há muitos anos, no Cine-Parque a cantar canções de abril. Há também em ti a vontade de dar voz a um país que, nos últimos tempos, não tem sido brindado com notícias que abonam muito em seu favor?

JF – Claro. Também sou uma pessoa de opinião. Já há algum tempo que ando a brincar com a ideia de que um dia destes vou formar uma banda punk. Isto porque dá mesmo vontade de escrever e de gritar algumas palavras para colocar algumas pessoas no sítio. No entanto, surge depois o meu outro lado que me diz para ganhar juízo, porque estamos num mundo em que, infelizmente, a luta individual é dificil. Não me resignei, mas cheguei a um ponto em que já percebi que ou aprendo a lidar com isso ou serei sempre um eterno revoltado.

RVJ – Mas o mundo em que vivemos não te preocupa ainda mais agora que tens a tua filha Maria?

JF – Neste momento a minha preocupação com ela tem a ver com a educação, o crescimento e os princípios que ela desenvolverá.

RVJ – A Maria sai ao pai? Já saem alguns acordes daqueles dedos pequeninos naturais de uma menina de apenas 19 meses?

JF – Acordes não, mas já saem algumas pancadas de tambor (risos).

RVJ – Como é que passas os teus tempos livres com a Maria? Já aprendeste a brincar com bonecas?

JF – Sim, a contar pela quantidade de vezes que tenho de a vestir… (risos). Mas agora a sério. Tento que as brincadeiras da minha filha sejam criativas. Terá tempo para se prender à televisão e aos telemóveis.

RVJ – Há um videoclip do Tiago Bettencourt, que começa com ele dizendo: “Eu gosto da noite, existe este lado escuro da noite que serve de camuflagem para o lado escuro de tanta gente como esconderijo onde tudo se esquece e tudo é luz e dança e tudo é final instinto e amor. Ainda reservas em ti esse gosto pela noite?

JF – A noite tem esse lado enigmático… A vida mudou, entretanto, com o nascimento da minha filha. Os horários de sono também. Já não estou tão notívago. No entanto, é naqueles momentos em que venho cá fora à noite em silêncio que consigo estar mais comigo próprio.

RVJ – Vamos ao desafio das respostas rápidas. Quem é que decide o sucesso dos projetos musicais em Portugal?

JF – As rádios e as televisões.

RVJ – Há boa música a ser produzida no pais?

JF – Sim.

RVJ – Ela passa nas rádios?

JF – A maior parte não.

RVJ – Os melhores músicos portugueses?

JF – Os mais talentosos não são de todo conhecidos.

RVJ – Qual é aquele que definitivamente não irias ver de forma nenhuma?

JF – Há muitos. Mas assim de repente: Maria Leal. Acho que não respondi à pergunta, porque ela não se enquadra na definição de músico.

RVJ – Um músico com o qual gostavas de trabalhar?

JF – David Sylvian.

RVJ – O melhor músico de Vizela?

JF – Há bons músicos em Vizela. Prefiro deixar a coisa por aí.