Arcanjos apoiam os Sem Abrigo: "“É uma noite sem sonhos"

A Festa de Natal das Crianças da Rádio Vizela, domingo, é solidária para com este grupo que integra vizelenses.

São apenas 16, os “Arcanjos” que, quinzenalmente, percorrem as ruas do Porto para distribuir 60 kit’s alimentares pela população sem-abrigo daquela cidade. Distribuem também abraços amigos, enquanto procuram soluções junto de várias instituições de apoio social. Uma causa que não deveria deixar ninguém indiferente. Junte-se ao Grupo de Amigos Arcanjos ao participar na Festa de Natal das Crianças da Rádio Vizela, a 18 de dezembro, contribuindo com bens alimentares ou agasalhos.

Confira a entrevista concedida ao RVJornal na semana passada, por Paula Oliveira e Dário Sousa, do Grupo Arcanjos.

 

RVJornal (RVJ) – Sendo natural da Ericeira, como é que o Dário chegou aos Grupo de Amigos Arcanjos?

Dário Sousa (DS) – Iniciei-me no voluntariado em 2013 com um grupo designado de “Anjos na Rua”. Entretanto, este acabou por se separar dando origem a outros. O nosso grupo - O Arcanjos - foi criado, no final de 2013, e entrou em atividade no ano seguinte. Quatro colegas sentaram-se no café e tomaram a decisão de avançar com o projeto. A partir, fomos registando a entrada de outros elementos. Atualmente somos 16.

 

RVJ – Quando enveredou pelo voluntariado, porque é que se decidiu pelo apoio aos Sem-abrigo?

DS – Sempre foi uma situação que me sensibilizou. Ia muitas vezes para o Porto de transportes públicos, depois seguia a pé para casa e parava junto de algumas pessoas que me chamavam a atenção.

 

“Também visitamos pessoas com problemas psicológicos que vivem em casas abandonadas, no meio do lixo… Não consigo sequer descrever o cheiro”.

Dário Sousa

 

RVJ – Como foi a primeira ronda?

DS – Eu consigo lidar com determinados assuntos de forma fria porque já passei por muitas situações na vida. Mas há sempre casos que me conseguem chocar e muito. Lembro-me, por exemplo, de uma situação: Numa altura, quando estávamos a organizar os kits para distribuir, olhei para o lado e vi um grupo de jovens com uma rapariga no meio. Estava a observá-la sem tirar o olhar. Quando me aproximei, perguntei-lhe de onde era e percebi que tinha sido professor dela. E ela respondeu: “O professor deu-me bons conselhos”.

Mas há outras situações que a gente não esquece. Nestas rondas, também visitamos pessoas com problemas psicológicos que vivem em casas abandonadas, no meio do lixo… Não consigo sequer descrever o cheiro.

 

“Fazemos rondas de 15 em 15 dias, sempre ao sábado, em que chegamos a casa pelas 03h00 e isso é complicado para quem tem família”

Dário Sousa

 

RVJ – Não é fácil chegar e ficar num grupo como o Arcanjos?

DS – Não. No voluntariado, por exemplo, na altura do Natal, há mais pessoas a apoiarem. É a chamada solidariedade pontual. Depois também há outras pessoas que, em determinadas alturas da vida, sentem mais necessidade de ajudar o outro, acabando depois por se retirarem quando atingem alguma estabilidade. Outras vezes também surgem compromissos que passam a ser incompatíveis com o voluntariado.

No nosso caso, fazemos rondas de 15 em 15 dias, sempre ao sábado, em que chegamos a casa pelas 03h00 e isso é complicado para quem tem família.

 

RVJ – O apoio da família é muito importante?

DS – É preciso muito querer e compreensão porque, por vezes, nem a doença nos impede de ir para a rua ajudar os nossos amigos.

 

RVJ – Antes de irem para a rua, há todo um trabalho preparatório para que nos dias de ronda existam bens para entregar aos Sem-abrigo…

DS – Atualmente já não é tão complicado mas, inicialmente, havia muitas dificuldades em conseguir dinheiro para completar os kits. Eram os voluntários que compravam os bens que faltavam. Apenas tínhamos pastelarias que nos forneciam os bolos do dia. Agora, já é mais fácil. O grupo já é mais conhecido… E os seus elementos vão-se apoiando. A morar em Vizela, sou eu, e depois temos a professora Paula, o Vítor e a Teresa.

 

RVJ – Quais são os bens de maior necessidade?

DS – Os bolos secos, pacotes de leite, garrafas de água, giletes, gel de banho, escovas de dentes, pasta dentífrica e também as roupas, o calçado e meias. Como eles não lavam, nem secam… Há mesmo muita necessidade de roupa. Após um dia de chuva andar com os pés molhados, é terrível. Tivemos um rapaz que nos veio pedir calçado porque já tinha os pés gretados e não conseguia andar.

 

“Quando não conseguimos doações, dentro do próprio grupo, vamos tentando compensar as faltas, comprando do nosso bolso o que falta”

Paula Oliveira

 

RVJ – São estes os bens com que as pessoas poderão contribuir na Festa de Natal das Crianças 2016 e que a Rádio Vizela está a organizar para o dia 18 de dezembro?

Paula Oliveira (PO) – Os nossos kits são compostos por café, bolachas, snacks doces, fruta e leite achocolatado. Vivemos de doações e no Porto temos quem nos ofereça, quinzenalmente, a água e o leite. Depois temos a questão dos cobertores, que humedecem com a chuva e é muito mau. Quando não conseguimos doações, dentro do próprio grupo, vamos tentando compensar as faltas, comprando do nosso bolso o que falta.

 

RVJ – Quantos kits distribuem quinzenalmente?

DS – Há uma ronda que vai para a zona da Batalha e outra que segue na zona da Rua Júlio Dinis. Em cada um dos lados são dados 30 kits, ou seja, 60 por noite.

 

RVJ – Quais as principais razões que levam as pessoas a viverem na rua?

DS – São variadas. Lembro-me de uma situação de um rapaz estrangeiro, que falava sete idiomas. Tinha vindo a Portugal por causa de uma rapariga por quem se tinha apaixonado, não deu certo e acabou por ficar por cá transtornado. Andava pela rua, mas perdemos-lhe o rasto.

 

RVJ – Isso acontece frequentemente?

DS – Acontece com alguma frequência. Quem está numa ronda, passa para uma outra e depois volta à primeira. Quando chega, já encontra pessoas diferentes.

 

RVJ – Mas isso é sinal de que as pessoas conseguiram encontrar abrigo?

PO – Significa que, na maioria das vezes, as pessoas afastam-se para procurarem novos cantinhos.

 

“Já houve situações de mulheres que se disfarçavam de homens para evitarem ataques sexuais”

Paula Oliveira

 

RVJ – O voluntário procura sempre encontrar quem abraçou na ronda anterior?

PO – Sim. Mas, às vezes, é triste, porque já não encontramos quem esperávamos. Alguns fogem dos voluntários por “medo”. Já tivemos um caso no grupo. Propusemos que ele saísse do país. No início, aceitou mas depois, por medo, recuou e afastou-se de nós para não se justificar. Para nós, também foi complicado. Tinha tudo para dar certo, mas recuou.

Mas o que os leva a estar na rua? Na maioria das vezes são os vícios, os consumos de álcool e droga. Conheço casos de pessoas que já estiveram bem na vida mas que, por fragilidade psicológica, recorreram a um vício que, por causar dependência, acabou por criar situações muito complicadas. São quase todos homens e jovens mas, também, encontramos gente na casa dos 50 anos.

DS – Por vezes, encontramos mulheres, mas elas tentam passar despercebidas porque, no caso delas, é mais perigoso. Já houve situações de mulheres que se disfarçavam de homens para evitarem ataques sexuais.

 

RVJ – Sabem quantos sem abrigo existem no Porto?

DS – Em 2016 houve uma publicação no “Jornal de Notícias” que falava em 1600. Só que a definição de Sem-abrigo é muito abrangente. Alguém que não tem uma moradia estável, que tenha um quarto alugado e que passado algum tempo passa para outro lugar é contabilizado como Sem-abrigo. Mas aqueles que procuramos auxiliar são os que vivem na rua ou em casas abandonadas. São cerca de cerca de 200.

 

RVJ – Há um Núcleo de Planeamento e Intervenção dos Sem-Abrigo no Porto. Qual é a missão desta plataforma?

DS – O objetivo é reunir os grupos de voluntariado e fazer com que eles trabalhem todos com o mesmo objetivo, de forma organizada e planeada para que a ação não colida e, principalmente, para que haja apoio aos Sem-abrigo todos os dias da semana. E tem funcionado. Os parceiros vão localizando pessoas a quem perdemos o rasto, direcionando-as para a assistência social.

 

“Eles dizem-nos coisas que marcam e que fazem a diferença no nosso dia-a-dia e no nosso mundo em que as pessoas quase não se olham nos olhos”.

Paula Oliveira

 

RVJ – Como é que a Paula Oliveira chegou ao Grupo de Amigos Arcanjos?

PO – Conheci o grupo através da minha amiga Teresa. Há muito tempo que queria fazer isto e a oportunidade surgiu num momento da minha vida em que precisava de ver outras realidades. A primeira ronda foi muito difícil, chorei de início ao fim. Ouvimos falar dos Sem-abrigo mas viver a realidade deles, é completamente diferente. No fim, disse para contarem com a minha ajuda mas, talvez não, com a minha presença. Mas no dia seguinte, pensei que isso seria uma covardia e mantive-me até hoje. Já lá há um ano. Vamos aprendendo a lidar com a situação, até porque o que eles precisam não é da nossa fragilidade emocional, mas da nossa força. Chegamos, damos um abraço, distribuímos o kit… O mais importante é o carinho. E eles esperam por nós… Recebo muito mais do que aquilo que dou. Eles dizem-nos coisas que marcam e que fazem a diferença no nosso dia-a-dia e no nosso mundo em que as pessoas quase não se olham nos olhos. Dizem “tu és o meu maior anjo, a minha melhor amiga”.

 

RVJ – Como é a Paula Oliveira nas ruas do Porto?

PO – É uma Paula genuína, amiga, aberta e com alguma responsabilidade. Temos de os deixar melhor do que os encontramos. Acho que o grupo é unido e tem conseguido transmitir esse carinho. Até nós, ressacamos um abraço. As pessoas hoje em dia não são carinhosas e eles rua são-no na rua. São afetivos e desinteressados, independentemente se levamos kit ou não. Na última vez, chegamos à Batalha muito mais tarde, mas eles estavam ali à nossa espera. Eles sabem que não falhamos.

 

RVJ – Gostaria de ver o Grupo de Amigos Arcanjos a crescer?

DS – Já dividimos o grupo em duas partes para que a ronda seja mais curta e para não encontrarmos as pessoas já a dormir. Também não convém o grupo ser muito grande para não intimidar. Muitas vezes, escondem-se porque não querem ser reconhecidos e têm vergonha.

 

RVJ – Já pensaram em criar uma associação?

DS – Ponderamos. Mas, para já, não é uma opção. As associações recebem alguns fundos, mas quando começa a entrar dinheiro, começam a surgir desconfianças.

PO – Voluntariado que é voluntario é desprendido. A dificuldade também é um desafio. Não ter nada e desse nada conseguir algo também é muito importante. O caminho faz-se caminhando e esse é o nosso lema. Vamos trabalhando com as doações de algumas pessoas e pastelarias, padarias (mesmo aqui em Vizela). Sobram bolos todos os dias e porquê não oferecê-los? Faço um apelo para que apoiem nesta causa. Nos atuámos de 15 em 15 e, apesar de no Porto já haver muita assistência, ainda há muita gente com fome e frio.

 

RVJ – Qual é o vosso desejo neste Natal?

PO – Seria um desejo impossível. Que cada um tivesse um natal especial, onde houvesse o tradicional bacalhau, o bolo rei, uma lareira e um mimo. Das coisas que mais me custou ouvir até hoje foi “na rua não há amigos, há conhecidos”. Entre eles, há roubos, aquele que chamamos de espírito da sobrevivência… É terrível percebermos esta realidade porque chegamos à conclusão que eles não têm nada. É uma noite sem sonhos, um dia em que o tempo corre em contramão. Este natal seria muito bom que fossem acolhidos pelos familiares porque muitos têm família. Não regressam por rejeição ou porque as famílias não sabem que eles estão na rua porque eles o escondem.

DS – Vamos para a rua para suprimir as dificuldades dos sem-abrigo mas o ideal seria retirá-los de lá e essa é o anseio com que foi criado este grupo. Tentamos colocar as pessoas em contacto com as assistentes sociais, incentivando-os a lutar e a tentar sair da rua.